terça-feira, setembro 21, 2021
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E se o estuprador é seu namorado?

Eu já comecei a escrever essa história muitas vezes. Parece que num momento eu sei o que quero dizer, e no segundo seguinte faltam palavras. Pudera. Eu demorei 15 anos para admitir que tinha sido estuprada. Parecia que, por ele ser meu namorado, por eu não ter terminado o namoro e ter continuado com ele por 3 anos e meio, o estupro não contava. Eu tinha a ilusão de que ele não sabia o que estava fazendo, talvez não tivesse notado que eu não queria, que me machucava, talvez ele achasse que eu gostava. Será mesmo que eu disse “não” alto o suficiente?

Quando você conta sobre alguma coisa terrível que aconteceu com você, as pessoas ouvem com uma medida pré-concebida de quão grave foi a sua tragédia, te julgam como se você estivesse exagerando, como se fosse uma competição de quem sofreu mais. Isso aconteceu comigo diversas vezes, quando falei sobre as outras ocasiões em que sofri abuso, em que fui atacada – sim, houve várias – eu me sentia diminuída, julgada. Eu fui uma criança vítima de abuso, vulnerável, bonita e sem um pingo de auto-estima. Eu realmente acreditava que se alguém me amasse, eu estaria em débito com esta pessoa, era como um favor.

E eu sonhava em ser amada.

Quando meu primeiro namorado me conheceu, eu tinha 13 anos e ele, 21. Meu primeiro beijo, com o qual eu havia sonhado romanticamente, havia acontecido havia poucos meses com um outro rapaz. Eu estava no Ensino Fundamental e ele na faculdade.

Eu achei uma sorte imensa alguém mais velho gostar de mim, e por isso cada vez que ele me estuprava eu chorava quieta, acreditava que era meu dever aguentar.

Hoje, eu sei que ele sabia, sim, o que estava fazendo, mesmo antes de as coisas ficarem insuportáveis. Em primeiro lugar, ainda que eu não conseguisse ter força de impedir, eu não consentia, e ele muitas vezes mentia. Houve uma vez em que as coisas foram tão brutais que ele se machucou e eu não percebi – era normal vê-lo ensanguentado, com o meu sangue.

Quando vi o rosto dele e percebi que o sangue, desta vez, era dele também, algo em minha alma não se segurou e eu gargalhei incontrolavelmente. Não por ele estar machucado, mas porque não era só eu!

Por “sorte”, ele Morava no Rio e nós mantínhamos um relacionamento à distância, nos falando pouco porque na época era muito caro, nos vendo cerca de uma vez por mês.

Ele me enchia de mimos e presentes caros, me escrevia longas cartas de amor e me mandava cartões nas ocasiões especiais, e eu achava que tinha sorte de ter um namorado que me mimava tanto. Frequentemente, ele preferia pagar minha viagem para vê-lo do que vir me encontrar, e depois de alguns anos ele até mesmo mudou-se para São Paulo por alguns meses, e depois voltou para o Rio.

Mais ou menos nesta época, as coisas entre nós começaram a se tornar insuportáveis. Eu não o confrontava sobre o estupro, mas brigava com ele em qualquer outra oportunidade.

Comecei a ficar ciumenta, em parte porque ele não tinha por mim a mesma dedicação doentia que eu tinha por ele, e em parte porque ele obviamente tinha outros relacionamentos na cidade dele, o que ficou óbvio quando encontrei algumas correspondências dele.

Ele, na tentative de me despistar, rapidamente as fez desaparecer e me trouxe uma grossa aliança de ouro e, sob a perspectiva de me casar com ele quando terminasse o colegial, comecei a procurar faculdades no Rio. Eu já tinha uns 16 para 17 anos, e comecei a questionar o nosso relacionamento.

Comecei a pedir a ele que não me machucasse, a me recusar a obedecê-lo na cama e, quando ele me estuprava, eu gritava e pedia para ele parar pelo amor de Deus, gritava que estava me machucando, as lágrimas escorrendo e ele olhando diretamente nos meus olhos.

Quando ele terminava, eu estava aos prantos, machucada fisicamente e com a alma em pedaços. Ele me dizia que não me ouvira, que não sabia, que nunca mais aquilo iria acontecer mas, claro, nada disso era verdade. Eu chorava até passar, e aceitava as desculpas dele.

Na última vez em que nos vimos, ele me confessou que na infância forçava sua irmã a fazer sexo com ele. A menina morrera aos 4 anos, e ele dizia a ela que a mãe havia mandado que ela fizesse isso, que a mãe ficaria brava se ela desobedecesse o irmão mais velho.

Até hoje, essa história me deixa estarrecida, e naquele momento foi o que fez com que minha ilusão a respeito dele começasse a se quebrar. Aquele homem que estava chorando na minha frente era um monstro, e sempre fora.

O que ele fizera comigo eu conseguia reprimir, mas usar o amor de uma irmã que ainda era pouco mais que um bebê… aquilo foi demais para mim.

Dali em diante, eu realmente esfriei completamente com ele. Tentei uma reaproximação, comprei um presente de dia dos namorados especial para ele na tentativa de salvar o relacionamento, mas antes que nos encontrássemos novamente, ele terminou comigo pelo telefone.

Eu tinha 17 anos, ele 25, eu o havia acompanhado em sua formatura da faculdade havia algumas semanas. E eu desmoronei. Por pior que fosse, aquele havia sido meu único relacionamento, e eu dera tudo de mim para mantê-lo. Me senti traída, esperneei e gritei, achei que nunca fosse me recuperar e, de fato, não sei se me recuperei.

Como alguém se recupera, volta a ser quem se é, quando se destruiu e deixou destruir pouco a pouco? Foi muito difícil, e meus relacionamentos seguintes foram doentes, porque a referência que eu tinha era ele. Mas eu consegui, sim, continuar.

Há alguns anos recebi a notícia da morte dele. Ele tinha severos problemas de coração e aos 30 anos houve algum tipo de agravamento e ele morreu, não sei de detalhes. Deixei uma mensagem lacônica aos pais dele, que chocou minha irmã por minha frieza.

Eu ainda não sabia o que sentir a respeito, e aos poucos comecei a reparar que havia um ódio dentro de mim por aquele homem. Comecei a dizer que gostaria que houvesse um inferno para que ele pudesse queimar ali, comecei a deixar o meu ódio e meus sentimentos tomarem forma e a expor esses sentimentos, o que foi um grande alívio.

Me dei conta que talvez eu tivesse sofrido uma espécie de Síndrome de Estocolmo, e li relatos e o livro da Natasha Kampuch para tentar entender o que se passara comigo. Mas foi apenas aos 30 anos, a portas fechadas com uma terapeuta iluminada, que as palavras vieram juntamente com as lágrimas: ele me estuprou, repetidamente, durante mais de 3 anos.

Não é porque ele era meu namorado ou noivo, não é porque eu não o deixei que não foi um terror, que me assombrou durante mais de uma década. E hoje eu penso na importância da auto-estima, na importância das meninas saberem o seu valor e os seus direitos.

Não acredito que as mulheres precisem aprender a se defender mais do que os homens precisam aprender a não atacar, tudo isso, toda essa cultura do estupro, o julgamento que recai sobre as vítimas, a noção de uma medida de sofrimento necessária para que ela não seja considerada “fresca”, a culpa sobre a vítima, tudo isso precisa acabar e, para isso, as pessoas precisam saber das consequencias da cultura do estupro.

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