“Estamos com vocês e estamos aqui para ficar”, diz diretora executiva da ONU Mulheres para ativistas feministas

Phumzile Mlambo-Ngcuka está no Brasil para os Jogos Olímpicos Rio 2016, até este sábado (6/8), a convite do Comitê Olímpico Internacional

Da Onu Mulheres 

Vidas marcadas pela violência racial e de gênero. Dores. Relatos fortes de mulheres sobreviventes em busca de direitos, justiça e reparações. Em
reunião com mulheres negras e ativistas feministas, a subsecretária-geral das Nações Unidas e diretora executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, recebeu novo panorama sobre o impacto da violência na vida das mulheres brasileiras. O encontro aconteceu, nesta quinta-feira (4/8), no Rio de Janeiro, com presença da representante da ONU Mulheres Brasil, Nadine Gasman, e cerca de 20 ativistas da sociedade civil.

Phumzile reafirmou o compromisso com as mulheres brasileiras: “Estamos com vocês e estamos aqui para ficar”. E completou: “A luta racial permanece incompleta, e o impacto do racismo permanece, muitas vezes, invisibilizado”, disse ao lembrar da situação das mulheres negras na África do Sul e nos Estados Unidos. A diretora salientou as várias formas de violência contra as mulheres no mundo ao rememorar os efeitos do sexismo na vida de afegãs, iraquianas e atletas.

Do luto para a luta – Um dos depoimentos mais emocionantes da reunião foi o de Gláucia Santos, cujo filho foi assassinado, aos 17 anos, com um tiro de fuzil, no Réveillon de 2015.”Hoje, eu não posso ter luto, porque tenho de ir à luta. Para sair as Olimpíadas, eu tive de perder. É com muita dor que eu falo essas palavras”, declarou.

Ana Gomes, ativista, professora e uma das líderes do Fórum de Mulheres Negras Cristãs, fez o apelo: “Não aguentamos mais morrer. Nosso corpo está morrendo de sucessivas dores”. Bia Onça, uma das articuladoras da Marcha das Mulheres Negras, perguntou a Phumzile: “Como a ONU Mulheres pode contribuir para essa fala coletiva das mulheres negras? Construímos esse país e não temos direito a ele. Nossos direitos não acontecem de forma alguma. Há um conjunto de políticas que não se complementam. Esse Estado que está aí mata os nossos meninos negros todos os dias, de ponta a ponta do Brasil. Quando se mata um filho, mata uma mãe”.

Adoecimento das mulheres – Mônica Cunha, ativista do Movimento Moleque, falou de suas próprias dores e de suas amigas de movimento. Descreveu os efeitos da violência na vida das mulheres por uma “coleção de doenças” e a pressão emocional em amparar umas às outras. “O que vou dizer para uma mãe sobre uma dor que não vai passar? E que ela terá de conviver com essa dor para o resto da vida?”, apontou.

Em meio às lágrimas, Dayse Moura, ativista cultural e do movimento de mulheres negras Associação de Mulheres Negras Aqualtune, lembrou a violência contra as crianças e adolescentes negras e negros. “Nós estamos por nossa própria conta. Quem está pagando a conta das Olimpíadas é o corpo preto. Não tem bala perdida. O tiro e a bala estão direcionados. Que se faça coro ao nosso lamento”, finalizou Dayse.

Racismo como determinante social – Jurema Werneck, da Ong Criola e membro do Grupo Assessor da Sociedade Civil da ONU Mulheres Brasil, afirmou que “o racismo faz uma diferença entre liberdade e sofrimento e entre vida e morte. Toda a ação para as mulheres nas Américas tem que enfrentar o racismo com coragem. Vamos seguir em luta. E temos certeza de que a ONU Mulheres marcha com a gente”.

Marcele Esteves, ativista do movimento LGBT e de mulheres negras e uma das líderes do Grupo Arco Íris de Cidadania, expôs o temor da violência que “joga travestis e trans para dentro dos guetos e das valas de morte. Lésbicas sofrem estupros coletivos e o Estado não dá condições para que as mulheres tenham como se recuperar”.

Ao final do encontro, a diretora Phumzile reiterou o apoio da ONU Mulheres às brasileiras e assumiu o compromisso de a entidade “encontrar formas para atender as demandas das mulheres negras, indígenas e LGBTT”. A diretora executiva da ONU Mulheres está no país participando dos Jogos Olímpicos Rio 2016, até este sábado (6/8), como convidada do Comitê Olímpico Internacional (COI).

+ sobre o tema

Eventos promovem feminismo negro com rodas de samba e de conversa

"Empoderadas do Samba" ocupa espaço ainda prioritariamente masculino e...

Dandara: ficção ou realidade?

Vira e mexe, reacende a polêmica sobre a existência...

Michelle Obama está farta de ser chamada “mulher revoltada de raça negra”

“Uma mulher revoltada de raça negra”. Michelle Obama está...

A banalização da vida diante da cultura do abandono e da morte

O ano de 2017 expondo as vísceras da cultura...

para lembrar

Mortalidade materna de mulheres negras é o dobro da de brancas, mostra estudo da Saúde

Assim como outros indicadores de saúde, a mortalidade materna é...

Presidenta Dilma Rousseff recebe lideranças do Movimento Negro

Educação, saúde, democratização da comunicação e enfrentamento à violência...

Não bastam as vozes da ciência e da saúde: é preciso ouvir as mulheres

Ativista do movimento negro, Jurema Werneck defende que é...

Ilê Aiyê promove a Semana da Mãe Preta em homenagem à mulher negra

A Associação Cultural Ilê Aiyê promove a partir da...
spot_imgspot_img

Negra Li mostra fantasia deslumbrante para desfile da Vai-Vai em SP: ‘Muita emoção’

A escola de samba Vai-Vai está de volta ao Grupo Especial para o Carnaval 2024, no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, neste sábado...

Livro põe mulheres no século 20 de frente com questões do século 21

Vilma Piedade não gosta de ser chamada de ativista. Professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e uma das organizadoras do livro "Nós…...

“O Itamaraty me deu uma bofetada”, diz embaixadora Isabel Heyvaert

Com 47 anos dedicados à carreira diplomática, a embaixadora Isabel Cristina de Azevedo Heyvaert não esconde a frustração. Ministra de segunda classe, ela se...
-+=