Mulheres pretas e pardas são as mais afetadas pela dengue no Brasil

Grupo representa 26% dos brasileiros com suspeita da doença

Mulheres pretas e pardas são o grupo populacional com maior registro de casos prováveis de dengue em 2024 no Brasil. Os dados são do painel de monitoramento da doença do Ministério da Saúde.

O grupo representa 26% dos brasileiros com suspeita da doença, somando 193,2 mil do total de quase 741 mil casos prováveis de dengue contabilizados até a tarde desta sexta-feira (23). Os registros prováveis são aqueles em que os indivíduos têm dois ou mais sintomas da doença.

Só este ano, 151 pessoas já morreram por dengue e 501 óbitos são investigados.

Em especial, as mulheres que mais têm risco de infecção pelo vírus são aquelas na faixa etária de 30 e 39 anos, seguidas de 40 a 49 anos e de 50 a 59.

Na última semana, os casos prováveis representaram uma alta de 294% em comparação com o mesmo período de 2023, ano em que o país bateu recorde de mortes pela doença. O Ministério da Saúde projetou que o Brasil pode atingir os 4,2 milhões de casos até o fim do ano.

Dados de casos em mulheres por raça/cor
Dados de casos em homens por raça/cor

Como um todo, as mulheres são 55,1% dos registros prováveis. A dengue tem aumentado a preocupação com as gestantes, grupo com risco de morte quatro vezes maior. Nestes casos, também há três vezes mais chances de morte do feto ou do bebê. Mulheres grávidas, mesmo com sintomas leves da doenças devem ser internadas para acompanhamento, segundo a Sogesp (Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo).

Dados de casos em mulheres por idade
Dados de casos em homens por idade

A população parda tem maior expressão dentre os casos prováveis. São 42% do total de registros. Se somada à população preta, totalizam 47,7% dos casos (354.153). Brancos representam 34,5%.

O grupo racial menos atingido pela dengue é o indígena, com 0,22%.

Segundo a pesquisadora Rita Helena Borret, médica da família que estuda a saúde da população negra na SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade Entidade), a maior incidência da dengue no grupo é um resultado da falta de trabalhos preventivos ao longo do ano em territórios vulneráveis.

“Para fazer o combate o mosquito da dengue, precisamos de uma ação efetiva do Estado ao longo de todo o ano em territórios vulnerabilizados, olhando focos de dengue em potencial, porque as chuvas vêm no verão. As mulheres negras são a maioria nas situações de moradias mais vulneráveis, que são lugares onde acaba tendo mais foco de dengue”, diz.

A transmissão do vírus da dengue depende do mosquito hospedeiro, o Aedes aegypti, cuja procriação ocorre com maior facilidade em ambientes úmidos e com temperatura elevada. A fêmea do mosquito deposita seus ovos nas bordas dos recipientes com água parada. Caixas, tonéis, barris de água, garrafas, pneus, sacos plásticos, lixo mal descartado e vasos de plantas se tornam criadouros.

As periferias das grandes cidades, principalmente, são locais favoráveis à procriação do mosquito, de acordo com Rivaldo Venâncio da Cunha, pesquisador da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

“A irregularidade no fornecimento de água para uso doméstico faz com que a população a armazene em objetos muitas vezes não adequadamente vedados. Nas periferias, também há uma deficiência histórica na coleta do lixo, cujo acúmulo serve para armazenar água. Há espaços urbanos que são mais privilegiados do que outros”, afirma.

A Pesquisa Nacional de Saúde de 2013, parceria do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) com o Ministério da Saúde, já mostrava alto índice de dengue entre mulheres: 14,3% afirmavam que havia sido infectadas pelo vírus, valor superior à média nacional apontada no estudo, de 12,9%. Entre pretos e pardos, o índice era 14,8% nos dois casos.

+ sobre o tema

Narrativas de presença e poder: diálogo geracional entre mulheres e homens negros

Em 1995, eu estava no mestrado (...), um colega...

A mulher negra no mercado de trabalho: A pseudoequidade, marcada pela discriminação da sociedade e a mídia no século 21

RESUMO Minuciosamente o trabalho demonstra a presença da discriminação racial...

Representatividade: grupo formado por cinco médicas negras inaugura clínica no Rio

Enquanto o mundo inteiro debatia os avanços da telemedicina,...

Atividades alusivas ao Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha – Ceará

Nos últimos anos, o INEGRA juntamente com o Fórum...

para lembrar

Assista: CEDENPA 40 anos

Assista CEDENPA 40 anos com o tema "Mulheres negras...

Ciclo “Mulheres Negras – Uma história que nos negaram”

A FLUP chega aos 10 anos reconhecendo o feminismo...

Histórias do feminino não traduz a realidade das mulheres negras

As pessoas adoram contar fatos da história do voto...

Fumageiras e a manufatura da história: lutas de operárias negras na Bahia

Para iniciar as indagações e reflexões deste artigo, trago,...
spot_imgspot_img

Ricos (não) merecem o que têm?

Privilégio representa alguma vantagem ou direito que uma pessoa ou grupo tem, independentemente de ter sido obtido por esforço próprio ou não. Privilégio nem...

‘Não tenho história triste, mas ser mulher negra me define muito’, diz executiva do setor de mineração, sobre os desafios para inclusão na indústria

Diretora de relações governamentais e responsabilidade social da Kinross Brasil Mineração, Ana Cunha afirma que a contratação de mulheres no setor, onde os homens...

No Dia para Eliminação da Discriminação Racial ONU reforça importância de investir em mulheres negras

No Dia Internacional para Eliminação da Discriminação Racial, 21 de março, ONU defende investimento em mulheres negras como caminho para o progresso. A campanha "Investir...
-+=