Plataforma colaborativa reúne ações de solidariedade a imigrantes e refugiados durante a pandemia

O Fórum Internacional Fontié ki Kwaze – Fronteiras Cruzadas da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a Cátedra Sérgio Vieira de Mello na Universidade Estadual de Campinas (CSVM-Unicamp), lançaram em 16 de abril a plataforma colaborativa Covid-19 e Solidariedade Migrante, na qual reúnem várias ações de solidariedade a migrantes e refugiados durante a pandemia no Brasil. O objetivo é ampliar a visibilidade e conexões entre as redes engajadas em ajudar essas comunidades.

O conteúdo é construído de forma colaborativa, por meio de um documento compartilhado que qualquer pessoa pode acessar e inserir campanhas e serviços voltados a imigrantes e refugiados promovidos por ONGs, sindicatos, igrejas, organizações, universidades, bem como movimentos sociais e coletivos. Essas ações podem ser, por exemplo, doações, medidas emergenciais, serviços públicos, materiais informativos e de comunicação, textos analíticos, leis, entre outros, e pode incluir também ações a nível internacional.

Até o início de maio, a plataforma já reunia mais de 40 iniciativas de solidariedade como tradução de material informativo para cinco línguas; propostas e medidas emergenciais da ONU e atendimentos de assessoria jurídica, serviço social e apoio psicológico online pelo WhatsApp. Além disso, o mapeamento conta com ações de organizações autônomas dos próprios migrantes como a África do Coração, a União Social dos Imigrantes Haitianos e Centro da Mulher Imigrante e Refugiada (CEMIR).

As organizações coordenadoras da proposta enxergam a necessidade de fortalecer o trabalho em rede nesse momento com a população migrante, uma vez que parcela significativa está indocumentada ou com alguma dificuldade na regularização migratória, o que tem impossibilitado o acesso aos benefícios sociais como a renda básica emergencial. Além disso, as dificuldades com o português, o desconhecimento das leis no Brasil, o racismo e a xenofobia são desafios que se agravam em meio à pandemia e fazem com que migrantes e refugiados sejam duplamente vulneráveis.

Embora o mapeamento da plataforma revele uma grande diversidade de ações, concentradas principalmente em São Paulo, Karina Quintanilha, doutoranda em Sociologia pela Unicamp e curadora do Fórum Fontié ki Kwaze – Fronteiras Cruzadas, analisa que as doações ainda são insuficientes. “Há muitas famílias imigrantes já passando fome e com muitas dificuldades estruturais para se prevenir do coronavírus, em especial nos bairros mais periféricos e nas ocupações de moradia”, diz. Ela conta que “`à medida que o mapeamento avança, é possível identificar que existe uma sobrecarga nas organizações por lacunas nos serviços públicos em meio a um contexto que exige políticas emergenciais de geração e garantia de renda, campanhas de comprometimento do poder público com os direitos da população imigrante e ações de prevenção do racismo e xenofobia”.

A pandemia do novo coronavírus Sars-Cov-2, causador da Covid-19, já afetou todos os estados brasileiros, causando 107.780 casos confirmados no Brasil e 7.321 óbitos, de acordo com dados do Ministério da Saúde nesta última segunda-feira (4). Em cidades como Nova York (EUA), com grande concentração de imigrantes indocumentados, latinos e negros estão entre as principais vítimas da Covid-19, principalmente em razão da falta de políticas que garantissem a quarentena e a prevenção de forma igual para todos. Até o momento, no Brasil, faltam dados sobre o impacto do coronavírus entre a população migrante.

Conforme explica a presidenta da Cátedra Ana Carolina de Moura Delfim Maciel, a iniciativa é uma ação que reforça a necessidade de agir em conjunto em função de uma pauta comum. “Com a eclosão da pandemia se faz necessário, mais do que nunca, empreender ações voltadas para a população de imigrantes e refugiados”, diz. “A Plataforma visa minimizar os efeitos da crise da Covid-19 nessa população extremamente vulnerável e que já enfrenta inúmeras dificuldades, algo que vem se agravando com a crise sanitária, econômica e social que atravessamos no Brasil e no mundo”.

Como próximo passo, as organizadoras estão buscando ampliar as articulações inter-regionais no trabalho com imigrantes e refugiados para que a plataforma sirva como um intercâmbio de experiências sobre as demandas e ações que vem ocorrendo em outras cidades e estados do Brasil, mas que muitas vezes não tem visibilidade. Também se propõem a publicar nas redes do Fórum e da Cátedra um boletim semanal com atualizações sobre as principais ações e notícias mapeadas por meio da plataforma.

Para colaborar, basta acessar o documento da plataforma neste link e incluir data, autoria, local, tipo de colaboração e um breve resumo da iniciativa. Para mais informações ou dúvidas, entre em contato pelo e-mail [email protected].

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