quarta-feira, dezembro 7, 2022
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Quarentena com outros olhos: maternidade, autocuidado, resgate da ancestralidade e o valor do tempo

Começo este texto como comecei esta reflexão: olhando para a pia do meu banheiro. Caso queira, pode ir lá olhar a sua pia também, ou qualquer outro lugarzinho onde você coloque suas coisas de uso pessoal para higiene e autocuidado. Na minha pia, dentre outros itens que considero básicos como escovas, fio dental e pasta de dentes, tem uma caixinha de medicamentos: colírio, soro fisiológico, antialérgico, polivitamínico, vitamina C, vitamina D, antigases, homeopatias, própolis.

Necessidade de hidratar os olhos por passar tempo demais em frente a telas de celular, computador e TV, hidratar as narinas por culpa da poluição cotidiana, o que também motiva o uso regular do antialérgico, que deveria ser item de emergência. Vitaminas em cápsulas para repor o que perdemos com uma comida e um sono de baixa qualidade. Antigases e homeopatias pelo estresse. Própolis para aumentar a imunidade reduzida com dias de angústia. Você pode não consumir as mesmas coisas que eu, mas se vive em uma cidade grande, é quase certo que sinta algumas ou todas as necessidades que motivam estes usos.

As grandes cidades e suas rotinas fazem com que a indústria cada vez produza mais itens chamando isso de autocuidado, porque nosso real item de autocuidado, o tempo, é sequestrado diariamente. Tempo é privilégio.

Durante a minha infância, assim como boa parte das crianças da periferia do Rio de Janeiro, eu ficava aos cuidados da minha avó após a escola, enquanto meus pais trabalhavam. Nas tardes com a minha avó, após um almoço cheio de legumes fresquinhos e carinhosamente preparados que comprávamos na barraquinha, era comum tirarmos uma soneca, depois fazermos um lanche, eu acompanhá-la em suas costuras, conversarmos, cuidarmos da pele com fubá e açúcar, cuidarmos do cabelo cada dia com uma receita diferente, fazermos alongamento pra acertar a postura e o dever de casa passado pela escola. Ao fim da tarde, fazíamos o café, víamos novela e molhávamos as plantas, aproveitando pra colher um galho de hortelã pro chazinho de antes de dormir. O tempo parecia infinito, e o dinheiro parecia bem pouco importante.

O tempo da minha avó só foi trazido novamente a mim através das pretas velhas do terreiro onde renasci. Mesmo assim, quando tive a oportunidade de me repensar com meses de recolhimento, eu estava tão ansiosa que não me enxerguei como alguém rica em tempo, mas sim como alguém cheia de necessidades. Vovó tentava me acalmar, e eu olhava somente para o final da linha do resguardo, encarando-o mais como uma corrida que como uma chance de pausa. Agitada pela correria do dia e pelas frustrações das necessidades inventadas, perdi parte do que me era mais valioso e não sabia.

Minha filha nasceu dia 21 de janeiro deste ano, 2020. Parte da minha gestação foi de grandes preocupações financeiras. Primeiro, um exame genético que eu precisava fazer e não tinha R$ 2400,00 pra pagar, o que me fez precisar desesperadamente de uma vaga do SUS, que tive a sorte de conseguir, e que felizmente me atendeu da melhor forma possível. Até eu fazer o exame, foram 4 meses de angústia cotidiana. Depois, por conta de um afastamento médico, dependi de um dinheiro do INSS, que nunca saiu. Estar grávida deveria ser difícil apenas pela gestação em si. Deveria ser um momento gostoso de descobertas, deveria ser um momento de profundo autocuidado, para que tudo corresse da melhor maneira possível. Fui tomada, em alguns momentos, por uma profunda inveja das mulheres ricas, que têm todas as possibilidades de autocuidado aos seus pés. Em outros momentos fui grata por eu ter a oportunidade de me cuidar de alguma forma, coisa que muitas mães não têm. Toda mãe deveria ter tempo psicológico para colocar cada coisa em seu lugar. Não foi assim para mim e nem é assim para maioria de nós. Ao final da minha gestação eu estava tomando sertralina, substância para tratamento contra a depressão, que é caríssima – e isso era em si outro problema, pois somente assim fui capaz de me manter sã para fazer o restante necessário. Depois de tudo isso, ao final da minha gestação eu não tinha a mínima preocupação em oferecer bens à minha filha. Eu não me preocupava com brinquedos, roupinhas em excesso ou com um quarto bem decorado. Minha preocupação era que ela tivesse o mínimo necessário, que tivesse um ambiente limpo e com uma família equilibrada, em paz. Minha filha nasceu, e as dívidas viraram nada. Na balança das preocupações, valia mais a minha sanidade que um nome sujo.

Agora deveríamos estar todos em quarentena. Falo “deveríamos”, porque em um país tão desigual é impossível que todos tenham o privilégio de se isolar para se cuidar o mínimo. Para início de conversa, o “fique em casa” só serve para quem tem casa. Depois disso, é só pensarmos no tanto de famílias que morreriam de fome sem que ninguém trabalhasse. Aí, antes de acusar alguém de irresponsável, é bom pensarmos no que faríamos nós, que estamos aqui com nosso computador ou celular com internet, se tivéssemos que escolher entre a certeza da fome e a incerteza de um vírus que pode inclusive ser assintomático. Voltando ao tema do texto, eu estou em quarentena. Na verdade, bem mais que isso, estou em casa desde outubro, somando gestação, problemas de saúde, licença maternidade e coronavírus. Não faço a menor ideia de quando foi que fiquei tanto tempo em casa. Agora que já faz tanto tempo que tenho tempo, comecei a percebê-lo como um privilégio e uma riqueza que não quero perder.

Há mais ou menos um mês deletei as minhas contas de Instagram e Facebook, depois de notar que mesmo quando eu não perdia tempo de vida em minutos, perdia em excesso de pensamentos, fossem bons ou ruins. Estava me sentindo pesada, meio poluída. Em seguida, comecei a dedicar meus minutos perdidos a testar receitas novas na cozinha, tentando ser prática e saudável numa rotina que inclui uma bebê de 2 meses em amamentação exclusiva com livre demanda. Também comecei a olhar para tudo o que atrapalhava meu cotidiano em excessos, e tentar resolver. Roupas para doar, armários para organizar, arquivos de computador para deletar e categorizar, livros para repassar, enfim, excessos. Então fui me sentindo leve. E parece que se sentir leve é um vício, faz eu querer me sentir cada vez mais assim.

Quanto mais coisas eu retiro da casa, mais coisas eu retiro de mim, e mais ganho tempo e espaço para olhar para o que realmente importa.

Com a dádiva do tempo, os remédios da caixinha estão, aos poucos, sendo menos utilizados. A sertralina foi embora. O colírio anda esquecido, porque na rotina que desenhei com a minha filha há muitas descobertas, sensações, exercícios e pouca tela para nós duas. Bebendo mais água, preciso me hidratar menos. As ruas mais vazias estão dando um ótimo auxílio com a redução da poluição, e solzinho da janela de casa está ficando mais agradável, e ainda que eu prefira a praia ou a floresta, tento trazer o máximo possível delas aqui pra dentro. Com mais tempo na cozinha, penso melhor nas combinações nutricionais e preciso menos de vitaminas de laboratório. Consegui até voltar a desenhar e a ler algo não técnico, assim, só por prazer, coisa que não fazia há muitos anos. Olhando para o meu dia e gostando do que fiz com minhas horas, necessito menos de remédios para dormir em paz. Consegui organizar uma rotina deliciosa respeitando os tempos da minha filha, e então consigo sentir que a auxilio no seu crescimento na mesma medida em que me sinto fazendo o que devo por mim. Com isso, me sinto orgulhosa da mulher que sou e elevo minha autoestima. Com isso, me sinto mais segura diante do meu companheiro. Com isso, consigo filtrar o que espero dele, e direciono melhor os meus desejos e incômodos. Com isso, compartilhamos o cotidiano de forma mais justa. Com isso, tenho tempo para cuidar de mim e seguir fazendo progressos. Com isso, me sinto oferecendo à minha filha boa parte do tempo que me oferecia a minha avó.

Meus pais trabalharam muito para que eu pudesse ter mais tempo livre que eles, e ainda assim estou longe de ter o tempo vasto das pessoas abastadas, que não precisam correr atrás de nada. Mesmo com minha infância cheia de tempo, eu corri e continuo correndo com meus dias, ainda que busque desacelerar.

E o que fazer para conseguir proporcionar à minha filha, que está nascendo nesse mundo de correria, a infância cheia de tempo que eu tive, sabendo que a licença maternidade vai acabar, esperando que não haja tantas pandemias pela frente e que tudo vai voltar ao “normal”? Eu queria muito ter a receita desse bolo, mas não tenho. Por enquanto, só tenho mesmo a certeza de que hoje sou uma pessoa diferente, com necessidades diferentes. Só sei que quero menos e que isso me ajuda a ser mais e ofertar mais, e que assim espero seguir, sendo uma boa mulher para mim, com muito tempo a dedicar à minha filha. Essa é a melhor herança que posso deixar.

 

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** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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