Quebra-Bondes: protestos negros em Salvador durante a Revolução de 30

Nos dias 4 e 5 de outubro de 1930, início da Revolução de 30, ocorreu um grande protesto em Salvador contra a Linha Circular, empresa exploradora dos serviços de eletricidade, telefonia e transporte público. Este último era constituído essencialmente de bondes e de ascensores públicos que faziam a ligação entre a cidade alta e a cidade baixa (planos inclinados do Pilar e Gonçalves e elevadores Lacerda e Taboão). Entre 1926 e 1930, a companhia consolidou o monopólio sobre esses setores, a partir da compra de duas outras concorrentes, a empresa Trilhos Centrais e a repartição municipal Seção Especial de Gás e Eletricidade, o que explica por que o protesto concentrou-se na Circular.

O Quebra-Bondes, como a manifestação ficou conhecida, destruiu dois terços dos bondes, causando grandes danos nos ascensores e em estações carris, elétricas e telefônicas. Segundo o cônsul dos Estados Unidos da América, testemunho ocular do protesto, os manifestantes eram em sua maioria “trabalhadores negros”.

Imagem 1: Bonde destruído na Praça Rio Branco pelos promotores do Quebra-Bondes. Salvador, outubro de 1930. Fonte: Arquivo Público do Estado da Bahia.

Os amotinados manifestaram seu repúdio ao papel da Circular na manutenção de um duro cotidiano urbano. Durante a passagem por Salvador, anos depois, o sociólogo americano Donald Pierson diria que a capital parecia uma “cidade medieval” cercada por “aldeias africanas”. Sua metáfora, embora simplificasse o cenário urbano, expressou o impacto da discriminação de cor, raça e classe no acesso aos serviços públicos e particulares. Habitada por proprietários, profissionais, intelectuais e políticos, em sua maioria brancos ou mestiços claros, a cidade alta reunia os hotéis, lojas, escolas, hospitais, assim como as principais linhas de ônibus e bondes.

Os trabalhadores negros e mestiços escuros residiam em casebres erguidos nas baixadas, que careciam da infraestrutura urbana presente na cidade alta. Os índices de alfabetização eram muito maiores entre os moradores da cidade alta, que em sua maioria eram adeptos do catolicismo romano, ao passo em que na outra zona a população era adepta do candomblé ou do catolicismo sincrético. Essa dualidade é sugerida no cartão postal a seguir, que mostra dois planos da cidade, uma parte alta, com casarões, e uma parte baixa, com casebres. O primeiro plano, onde estão as casinholas, é dominado no postal “uma rua do bairro negro”.

Imagem 2: Cartão postal mostrando duas zonas de Salvador. Fonte: desconhecida.

Não existia moradia suficiente na capital, sendo parte importante dos trabalhadores obrigados a se mudar para os barracões dos subúrbios. Havia pressão para que a Circular construísse linhas de bondes para atender à população suburbana, embora entre 1926 e 1930 fossem contempladas apenas os subúrbios da Federação, Cabula e Liberdade. O crescimento demográfico, que em parte era a causa do déficit habitacional, gerava sobrecarga no transporte público. Constituíam-se longas filas diante dos ascensores públicos, ao passo em que nos bondes os passageiros tinham que se transportar em pé ou mesmo dependurados nos estribos.

Imagem 3: Passageiros formam fila diante do Elevador Lacerda. Salvador, sem data. Fonte: Arquivo Histórico Municipal de Salvador. 

Outro sério problema era o estado precário dos bondes e ascensores, causador de tráfego lento, incômodo e inseguro. Entre os acidentes, destacaram-se as quedas de gabinetes ou balanças nos ascensores, assim como atropelos e descarrilhamentos dos bondes. No início de 1926, a Circular precisou realizar uma reforma no plano inclinado do Pilar, pois os passageiros eram esmagados entre o gabinete e a parede, registrando-se mortes. Meses depois, um cobrador da companhia também foi esmagado entre um bonde e uma parede, por ser obrigado a transportar-se no estribo, por causa da superlotação.

Entre 1927 e 1930, isto é, antes do movimento dos dia 4 e 5 de outubro de 1930, ocorreram ao menos cinco quebra-bondes, isto é, ataques populares aos bondes da Circular na Baixa dos Sapateiros, Brotas, Liberdade e Baixa de Quintas. Depois de discutirem com empregados da companhia, em geral por conta da sobrecarga, os passageiros escangalharam os carros usando pedras e paus, até a chegada da polícia, que os reprimiu. Estes eram protestos muito menores que o ocorrido nos dias 4 e 5 de outubro de 1930, mas foram importantes precedentes para o Quebra-Bondes (com letra maiúscula). Existiam, ao mesmo tempo, formas pacíficas de protestos, como as reclamações junto à empresa, aos poderes públicos e aos jornais. Em geral, eram desatendidas, obrigando a população a recorrer a medidas extremas, como a destruição de propriedade. 

Outro problema ligado à atuação da Circular era a eletricidade, em grande parte concentrada nas áreas centrais, excluindo as populações suburbanas. Era insuficiente a produção energética das usinas de Salvador, daí originando-se constantes crises no fornecimento elétrico, isto é, apagões. No centro urbano, a cidade era penumbrosa, ao passo em que nos arrabaldes a escuridão era mais intensa, em muitos casos absoluta. De quando em quando, ocorriam desastres elétricos, por causa da situação precária dos transformadores, postes e cabos da empresa.

No Rio Vermelho, em julho de 1929, um desses acidentes matou um calceteiro, feriu um carregador de carne e dois empregados da Circular, quando o descarrilhamento de um bonde ocasionou a ruptura do fio da iluminação pública, causando um grande curto-circuito. Ostentando a foto do morto e de um dos feridos (dois homens negros), os jornais teceram pesadas críticas à empresa.

O Quebra-Bondes desdobrou-se ainda de um programa de reformas urbanas conduzidas na cidade, entre 1928 e 1930, pelos governos estadual e municipal em associação com a Circular. Tais reformas prometeram solucionar os problemas nos serviços urbanos, mas acabaram gerando carestia, por causa de aumentos tributários e tarifários delas resultantes. O Quebra-Bondes igualmente desdobrou-se da crise política gerada pela concorrida eleição presidencial de 1930, disputada por Júlio Prestes e por Getúlio Vargas, que era o candidato da oposição, lançada pela Aliança Liberal.

O descontentamento da população com as reformas urbanas e, em particular, a atuação da Circular, seria mobilizado em Salvador durante a campanha nos comícios e jornais da Aliança Liberal. Vital Soares, o governador baiano, era candidato a vice-presidente ao lado de Júlio Prestes, sendo muito associado às reformas citadas. O mencionado descontentamento seria igualmente agitado durante as negociações para a escolha do próximo governador da Bahia, pois Vital Soares renunciou ao posto em 1930.

O protesto dos dias 4 e 5 de outubro acabou representando uma maneira de a população, sobretudo os trabalhadores negros identificados pelo cônsul dos Estados Unidos da América, exprimirem sua insatisfação contra os problemas urbanos, exatamente quando ocorria a Revolução de 30. Ele mostrou a possibilidade de a crise política em curso radicalizar-se pelas mãos dos soteropolitanos comuns, deixando, assim, uma sensação de insegurança nas classes dominantes. É um objeto crucial para percebermos os significados que a população trabalhadora e negra atribuiu à insurreição armada que derrubou a Primeira República (1889-1930). Pode-se assim captar a presença desses sujeitos na Revolução de 30, episódio que abre um capítulo na História do Brasil, em publicações acadêmicas ou didáticas.

Os temas presentes na história do Quebra-Bondes, isto é, a segregação racial e de classe nas cidades (mesmo que não escrita na lei), serviços urbanos caros e ineficazes, a insensibilidade de autoridades públicas e particulares diante dos clamores da população, bem como a carestia, seguem atuais, não apenas no Brasil. Sem contar com uma clara liderança ou preparação, o Quebra-Bondes foi semelhante, guardadas as proporções, à Revolta do Buzú (Salvador, 2003) e às Jornadas de Junho (Brasil, 2013). Foi também um aumento no transporte público que detonou a revolta social no Chile (2019), implicando uma profunda transformação no cenário político do país andino.

Assista ao vídeo do historiador Jonas Brito no Acervo Cultne sobre este artigo: 

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

Ensino Fundamental: EF09HI05 (9º ano: Identificar os processos de urbanização e modernização da sociedade brasileira e avaliar suas contradições e impactos na região em que vive).

Ensino Médio: EM13CHS601 (Identificar e analisar as demandas e os protagonismos políticos, sociais e culturais dos povos indígenas e das populações afrodescendentes (incluindo as quilombolas) no Brasil contemporâneo considerando a história das Américas e o contexto de exclusão e inclusão precária desses grupos na ordem social e econômica atual, promovendo ações para a redução das desigualdades étnico-raciais no país).


Jonas Brito

Telefone: (75) 99198-0043 

Doutor em História

E-mail: [email protected]

Instagram: @jonasbrito.h


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