domingo, setembro 19, 2021
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Uma liderança em Ferraz de Vasconcelos

A voz que atendeu a reportagem de Geledés por trás do grande portão cinza é forte e rouca. É na garagem de sua casa, lugar onde também realiza os atendimentos às mulheres vítimas de violência da região do Parque São Judas Tadeu, em Ferraz de Vasconcelos, por meio do Núcleo Maria Tereza, que Jussara Oliveira, líder comunitária, de 59 anos, nos recebe. As diversas violências sofridas fez de Jussara uma sobrevivente que usa a dororidade como um dispositivo contra a violência doméstica, comumente sofrida por mulheres negras da periferia. Ela é do tipo que não manda recado, e o que teve que engolir, ficou para trás, nas marcas do passado. Em sua trajetória da cidade de Mococa, no interior de São Paulo, onde nasceu, à Ferraz de Vasconcelos, onde vive, essa mulher passou a reivindicar uma vida sem violência para outras tantas como ela.

Seu tom de voz firme traduz seu propósito para o mundo, escritora de sua própria história que não deixa mais ninguém decidir por ela. Filha de mulher preta e dona de cabaré, Jussara teve dez irmãos, todos internados em orfanatos ou doados, inclusive ela, vivenciando uma infância permeada por muita humilhação. Aos 16 anos foi vítima de um estupro, engravidou, e com a morte da mãe biológica viu o pretenimento bater à porta, sendo deixada para trás.

Depois de muitos percalços pelo caminho, aos 18 anos, Jussara teve encontros bonitos que promoveram reflexões e respiros. Foi assim quando conheceu Elza, de quem não se lembra do sobrenome e que se tornou amiga. Elza frequentava os encontros do Movimento Negro Unificado que aconteciam na Rua Bela Cintra, no centro de São Paulo, e foi quem a levou para participar de palestras e rodas de conversas sobre temáticas de gênero e raça. Foi este o primeiro passo para o reencontro consigo mesma e com sua história de vida: passou a entender as mazelas do racismo e a identificar de forma concreta cada violência sofrida, se tornando sedenta por mudanças e justiças ao entender a força do apoio de outras mulheres negras.

Em suas andanças antirracistas conheceu as falas de Lélia Gonzáles, intelectual, antropóloga e militante e icônica referência para as mulheres negras. Conheceu também Sônia Santos, ativista e militante do Partido dos Trabalhadores (PT) e do Movimento de Mulheres Negras. Lembra-se do encontro com Sônia como se fosse hoje: “Tinha orgulho dessas mulheres. Na última caminhada que fui, vi a Sônia, e naquele momento disse que queria ser como ela”, conta.

Ao romper seu casamento, Jussara entrou em depressão e tentou por duas vezes tirar a própria vida, cortando os pulsos e ingerindo cerca de 60 cápsulas de um remédio para epilepsia. Mas sobreviveu e se refez com a ajuda dos filhos, decidindo que a luta pela vida agora seria ampliada para todas as mulheres.

Jussara, então, conheceu Claudete Alves e com o Geledés- Instituto da Mulher Negra, na Cidade Tiradentes, periferia da Zona Leste de São Paulo, mudou totalmente sua trajetória. Através das formações que aconteciam aos sábados, às 9h, com coordenação do projeto das Promotoras Legais Populares (PLPs), agentes multiplicadoras de cidadania e lideranças comunitárias, ela passou a entender a complexidade das relações entre mulheres negras e como suas histórias se entrelaçam.

A história da vida de Jussara também se repete na vida de outras mulheres pretas do extremo da zona leste, e por esse mesmo motivo, ela sentiu a necessidade de multiplicar seus saberes na periferia. Fundou o Núcleo Maria Tereza, com foco nesse trabalho. “Não adianta fazer muita coisa para os bacanas aparecerem e não fazer no próprio bairro”, diz.

Em Ferraz de Vasconcelos, localizado no Alto Tietê, as desigualdades são latentes, uma vez que o município é composto por bairros vulneráveis, onde sequer existe saneamento básico. Apesar de existir uma Secretaria municipal voltada à assistência, promoção e desenvolvimento social, raramente a população é beneficiada naquele local. A fim de mapear as famílias vulneráveis e chefiadas por mulheres, com toda sua expertise, Jussara fez um levantamento à mão em um caderno a fim de conseguir colocar em prática ações efetivas congruentes com as necessidades dessas mulheres.

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Jussara Oliveira, à esq., em passeata contra o racismo

A garagem de sua casa, que tem paredes rebocadas de cimento, se tornou a sede do Núcleo Maria Tereza, um lugar de puro acolhimento e aconselhamento de mulheres. As cadeiras em forma de círculo estão dispostas no ambiente à espera de alguma mulher que passe por ali. Por diversas vezes, Jussara deixa o portão de acesso à garagem aberto, num gesto convidativo para uma boa conversa. Ali, ela tem o papel de orientar outras mulheres a terem acesso à Justiça e aos seus direitos, no que diz respeito ao enfrentamento da violência doméstica, das discriminações de gênero, da orientação sexual e de raça. O núcleo leva o nome e a força de sua irmã.

Jussara ainda se recorda de seu primeiro aconselhamento nos primórdios do Núcleo Maria Tereza, em que recebeu denúncias de violência no ambiente escolar. Na época, como uma maneira de ir além da vítima e atingir outras crianças do Parque São Judas Tadeu, resolveu projetar um filme em que ressaltava a beleza negra, lotando seu quintal de crianças. Ali impulsionou suas primeiras rodas de conversas, de leitura, e realizou um trabalho de resgate de autoestima e empoderamento.

Antes da pandemia, a cada três meses, através da influência de sua liderança na comunidade, Jussara organizava na Igreja Assembleia de Deus Rompendo em Fé, em Ferraz, um encontro de mulheres com o propósito de orientá-las sobre seus direitos e violência doméstica. Por vezes, o campo religioso coloca estas mulheres em um lugar de submissão, tornando mais difícil a identificação das violências e, por isso, a fala dentro do espaço religioso é significativa. No boca a boca, Jussara costumava encher o salão da igreja. A produção dos lanches tinha um sabor de celebração, era um momento único em que as mulheres podiam ser escutadas, se sentindo seguras e com a oportunidade de recuperar a autoestima. A partir destes encontros, muitas histórias foram transformadas. Há relatos de mulheres que adquiriram independência emocional e financeira, voltaram a estudar, a trabalhar e, principalmente, conseguiram, enfim, romper as relações com seus agressores. A luta de Jussara é para que o Núcleo Maria Tereza não caia no assistencialismo, com alguém decidindo por elas. “O espaço não é apenas um local de distribuição de cestas básicas ou leite, é um lugar de autonomia”, diz.

Com a aparição da Covid-19, os encontros na igreja precisaram ser suspensos, e as incertezas, então, vieram, pois o Núcleo Maria Tereza ainda estava se estruturando em ações efetivas em um processo de obter apoio da comunidade.  Com o isolamento social e em busca de manter as atividades e relações com essas mulheres, o Núcleo promoveu uma ação para o enfrentamento da violência doméstica durante a pandemia na UBS Dr. Geraldo José Rodrigues Alckmin, em Ferraz de Vasconcelos. A promoção de escuta dessas mulheres na periferia de Ferraz ganhou força com o aumento de casos de feminicídio durante a pandemia do novo coronavírus. Segundo o estudo “Violência Doméstica durante a pandemia de COVID-19”, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgado em junho de 2020, esse crescimento foi de 41,4% nos meses de março e abril, se comparado aos números do mesmo período do ano anterior.

O Núcleo Maria Tereza segue se aperfeiçoando para enfrentar o período pós-pandemia. As mãos sempre em movimentação de Jussara não escondem sua ansiedade. Ela mostra à reportagem de Geledés um novo banheiro e um espaço para ginástica na sede, que tornam o ambiente ainda mais acolhedor para receber as vítimas de violência. O medo da Covid -19 não a afastou de sua missão. “Eu não posso ficar saindo, sou grupo de risco, mas eu preciso auxiliar a formação de outras mulheres para seguirem nesse enfrentamento”.

Em “Manifesto / Pule Garota” do grupo composto por mulheres, Rimas & Melodias, a escritora e filósofa Djamila Ribeiro recita que romper silêncios é o primeiro passo para a cura. Jussara tem feito isso, usando sua própria vida como um espelho que reflete suas iguais, mostrando novas possibilidades de existência em uma sociedade que tem o racismo e o machismo fincados em suas estruturas.

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