sábado, setembro 18, 2021
InícioGeledésGeledés no DebateUma negra na contramão das estatísticas

Uma negra na contramão das estatísticas

A reportagem abaixo inicia a série Geledés- Retratos da Pandemia, que traz histórias de como os moradores das periferias estão enfrentando a batalha contra a covid-19. São relatos que capturam a humanização do cuidado, a solidariedade e a organização nas comunidades em prol dos mais afetados pela doença infecciosa. 

*************

 

A história de Micheli Alexandra Nogueira, de 37 anos, ou Micheli do MTV como é conhecida entre amigos e companheiros de militância antirracista, mostra que é possível se reinventar seja por amor ou por necessidade.

A reportagem de Geledés visitou Michile em seu apartamento, no bairro de Morro Grande, localizado no município de Caieiras, a 35 km da capital paulista e com 102 775 habitantes. Na capital paulista, a moradia seria conhecida como CDHU, um projeto habitacional e de desenvolvimento urbano que beneficiou muitas pessoas nas periferias da metrópole. O bairro está em desenvolvimento e conta com muitos loteamentos, casas sendo erguidas e é possível se avistar muitos cartazes de construtoras que anunciam que em breve a ampla área verde será substituída por prédios.

Micheli, preta, pobre, nascida e criada entre os bairros Jardim São Francisco e Jardim Nova Era, no distrito de Caieiras, em São Paulo, com histórico comum de mulheres periféricas, fez de sua determinação o pilar de sua vida. Filha de mãe solo, sua avó Luzia, falecida há pouco tempo, sempre foi sua principal referência de luta e resistência e quem a levou para o caminho dos sonhos. Nesta entrevista ao Geledés, Micheli revelou que não bastava simplesmente ter sonhos, mas a família teria de fazer parte deles. “Quem não sonha é um morto em vida”, resume. A cumplicidade entre neta e avó fez com que ela se reinventasse diante de tantas adversidades. Hoje ela sustenta a família como boleira e faz cursinho para ingressar em uma universidade pública, sem saber ainda qual curso escolher, entre Letras, Direito, Serviço Social e Psicologia.

Micheli andou na contramão das estatísticas. Segundo dados disponibilizados pelo SEBRAE em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, 36% das empreendedoras negras têm maior dificuldade em funcionar de modo virtual e conseguir empréstimos bancários em razão do CPF negativado, enquanto que esse índice cai para 29% entre mulheres brancas e 24% entre homens brancos. A mesma pesquisa revela que as mulheres negras são 17% dos empreendedores do país e ganham menos do que todos os outros grupos, R$ 1.384 por mês. Isso equivale a cerca de metade do rendimento mensal das empreendedoras brancas, de R$ 2.691, e 42% do valor de recebido por homens brancos, R$ 3.284. Sua trajetória, porém, assim como a de muitas mulheres negras de zonas periféricas das grandes metrópoles brasileiras, foi permeada por inúmeros percalços.

blank
Micheli na celebração Kizomba da Uneafro comemorando 10 anos de atuação em prol da educação

Filha única teve que se deparar aos 14 anos com a ausência da mãe que trabalhava fora, precisando aprender a fazer tudo sozinha e a cuidar de si mesma.  Enfrentou todos os estigmas e estereótipos racistas, classistas que a sociedade brasileira impõe e reproduz. Ao rever sua história, a mulher determinada hoje se orgulha de ter alcançado um bom resultado de tudo que viveu em sua adolescência no Jardim Nova Era.

Em 2001, o sonho de ter o nome aprovado na lista de universidades públicas fez com que Micheli se inscrevesse em um cursinho popular, a Poli. Dois anos depois, sem conseguir a vaga pretendida em uma universidade pública, iniciou o curso de Ciências Sociais na PUC-SP.  Mas por questões socioeconômicas, que permeiam a vida de tantas mulheres negras, precisou interromper seu curso. A vida seguiu, vieram os filhos, o enfrentamento de relações tóxicas e abusivas, o desemprego. Não foram embora nem a vontade e nem a disposição para seguir em frente.

Após o fim de uma relação tóxica, ela resolveu estudar EAD (Ensino a Distância), por três vezes e em três cursos diferentes, mas mais uma vez não conseguiu conclui-los, engolfada pela dura rotina, as crianças, a casa, os problemas com o divórcio. Em 2019, desempregada, entrou para os movimentos negros de São Paulo, participando de eventos importantes da Coalizão Negra Por Direitos, acirrando o interesse nos estudos. Ela havia terminado o ensino médio em 2001 e, para ingressar em uma faculdade, seria necessário fazer um cursinho, desta vez popular. No final de 2019, Michelli conheceu os núcleos da Uneafro Brasil, movimento que se organiza em núcleos de cursinhos pré-vestibulares comunitários que atendem jovens e adultos oriundos de escolas públicas, prioritariamente negros/as.

blank
Débora e Miguel em frente à Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema (SP).

Foi através da Uneafro que Michelli ingressou na Comunidade Cultural Quilombaque, criada em 2005 por jovens, artistas, agentes e ativistas culturais e que atua com projetos socioculturais para o fortalecimento da cultura afro-brasileira. “Eu fiquei abismada com toda a estrutura, com tudo… um mundo se abriu pra mim. Não foi só um cursinho que ia me levar para a universidade, eles me devolveram à ancestralidade que me foi negada. O Quilombaque abriu minha mente.” E completou: “Entendem as minhas questões. Sabe quando você divide suas aflições com outras mulheres pretas sobre coisas que quer buscar e das coisas que você precisa? Isso é outra coisa”. Em diálogo com Paulo Perê, professor de sociologia do cursinho popular do Quilombaque, Micheli teve encontro com a poesia. Ela, que justamente não sabia que fazia arte, passou a escrever como parte do seu dia-a-dia, não só pela arte, mas também porque durante o isolamento teve acesso aos cuidados psicológicos disponibilizados pela instituição. Escrever, agora, também faz parte de seu processo terapêutico.

Enfrentamento de uma mulher preta e periférica durante a pandemia 

No Brasil, as mulheres pretas são as menos remuneradas no mercado de trabalho, se comparadas às pessoas não negras, como os dados demonstram. E o desemprego não para de assolá-las. De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de desemprego subiu de 13,6%para 14,0% entre agosto e setembro (meses de pandemia), impactando as mulheres em 17% e os negros em 16%. Mesmo assim, o empreendedorismo para elas pode ser um caminho, ainda que estreito.

O decreto de medidas de isolamento da quarentena, mais uma vez levou Micheli a temer ter seus planos interrompidos. Com poucos meses de cursinho, desempregada, e ainda sem poder frequentar o quilombo, a situação afetou seu psicológico. Crises de pânico e ansiedade se tornaram frequentes, em meio ao uso obrigatório de máscaras e luvas dentro de casa e à rotina de passar pano no chão de três a quatro vezes ao dia, espirrando o álcool líquido no ar. Dentre todas as inseguranças que a travessia da pandemia lhe trouxe, veio o medo se o cursinho continuaria, como manter a casa, os filhos, se seria possível voltar a ver e abraçar as pessoas novamente. “Questionei até Deus. Como que eu tenho contato com um mundo novo e, de repente, eu tenho que deixar dele, sendo que eu não quero deixa-lo nunca mais?!”, diz.

Em março, seu filho Miguel, de 12 anos, passou a fazer bolos caseiros para vender. Houve momentos em que as contas eram pagas com o lucro dos doces e bolos que ele fazia. A cozinha pequena do apartamento se transformou em uma confeitaria, com uma produção que chegou a dez bolos por dia. A geladeira, com a porta quebrada há anos, já não estava suportando o volume de doces. Empreender para mulheres pretas é um processo difícil, mas também emancipatório.

blank
Micheli e seus filhos, Débora e Miguel, ao lado de Ana Maria Alves e a presidenta do Geledés, Maria Sylvia de Oliveira, no Encontro Internacional da Coalizão Negra Por Direitos, em SP

Em abril, Micheli teve a ideia de vender ovos de Páscoa, o momento era propício, e logo viriam outras datas comemorativas, como Dia das Mães, Dia dos Namorados e Dia dos Pais. O fluxo de pedidos foi aumentando, eram trufas, tortas, pães de mel. Durante o processo, ela percebeu sua capacidade de organização pessoal e financeira. Uma amiga da família deu de presente um fogão e uma geladeira usada. Os novos confeiteiros seguiram assim, trabalhando e ajeitando a rotina e as contas que não paravam de chegar. Afinal, Michelli é uma mulher que nunca teve medo de trabalhar: “Já fiz limpeza, fui diarista e fui muito feliz, pois era o sustento de minha família, já fui estagiária. Fui muito discriminada, sofri muito racismo e preconceito por ser divorciada, por ser mãe solo”. Ela também foi uma das beneficiadas com a vakinha da Uneafro Brasil (https://www.vakinha.com.br/vaquinha/campanha-de-solidariedade-em-tempos-de-coronavirus), projeto que ofereceu R$ 400 no mês de março, além das cestas básicas durante três meses.

Mesmo durante a pandemia, a vontade de estudar não foi interrompida. Hoje o objetivo maior de Micheli é conseguir ocupar uma cadeira na universidade pública e fazer especializações para dar continuidade aos trabalhos do Quilombaque.  Em abril, os professores, junto à coordenação do cursinho, fizeram esforços para que as aulas acontecessem online, porém os alunos que estudam no cursinho, assim como Micheli, estavam com inúmeras dificuldades, da perda do emprego às incertezas de não ter comida à mesa, sem contar que adoecer nas quebradas significa não ter respirador para preto e pobre.  Além das cestas básicas, o Quilombaque disponibilizou internet a seus alunos através da campanha 4G para quem pudesse estudar. (https://www.facebook.com/157037681160828/posts/1327153310815920/?extid=0&d=n), “Sobrevivi aos primeiros meses da pandemia com muita ajuda”, lembra-se Micheli.

Foram muitas as movimentações em diversas quebradas de São Paulo durante o início da pandemia, em comunidades como Paraisópolis, Heliópolis e Favela do Cai Cai. Moradores e instituições entenderam rapidamente o impacto causado pela covid-19 nas periferias, e que, obviamente, os mais atingidos seriam mais uma vez os pobres, os pretos e os periféricos. Tivemos uma mostra do poder do “Nós por nós”, e se a periferia se unir de fato, seremos totalmente capazes de desenvolver uma economia solidária que vem de vez para combater o capitalismo que aí se encontra.

RELATED ARTICLES