99% das mulheres assassinadas em Alagoas em 2019 eram negras, revela o Atlas da Violência

Enviado por / FontePor Roberta Batista, do G1

Apenas uma das 89 vítimas naquele ano não tinha indicação de raça/cor. Alagoas é um dos cinco estados com maiores crescimentos de assassinatos de mulheres.

99% das mulheres que foram assassinadas em Alagoas no ano de 2019 eram negras, de acordo com dados divulgados pelo Atlas da Violência nesta terça-feira (31). Apenas uma entre todas as vítimas de homicídio feminino naquele ano não tinha identificação de cor/raça. Foram 89 homicídios de negras e 1 sem cor/raça definida.

O levantamento escancara uma dura realidade: as mulheres negras estão em maior situação de vulnerabilidade social.

“Como explicar a melhoria nos índices de violência entre mulheres não negras e o agravamento, no mesmo período, dos números da violência letal entre mulheres negras? Romio (2013) defende que a violência contra as mulheres negras seja compreendida a partir de suas especificidades, afirmando que elas estão desproporcionalmente expostas a outros fatores geradores de violência, como desigualdades socioeconômicas, conflitos familiares, racismo, intolerância religiosa, conflitos conjugais, entre outros. Carneiro (2003), por sua vez, defende que o racismo seja compreendido como um eixo articulador das desigualdades que impacta nas relações de gênero”, diz trecho do levantamento.

O estudo recomenda que as políticas públicas para o enfrentamento das altas taxas de violência contra a mulher “não pode prescindir de um olhar sobre o racismo e a discriminação e como estes fatores afetam desigualmente as mulheres”.

Cresce a violência contra a mulher em Alagoas

Entre 2009 e 2019, o número de mulheres assassinadas no estado caiu 18,9%, mas a situação piorou de 2018 para 2019, quando a variação aumentou para 34,3%. Em números absolutos, foram 67 vítimas e 2018 e 90 no ano seguinte.

A taxa de homicídios de mulheres em Alagoas seguiu a tendência do número absoluto. De 2009 a 2019, o índice caiu 34,3%, mas a variação diminuiu entre os anos de 2018 e 2019. A média foi de 33,6%, sendo 3,8% em 2018 e 5,1% em 2019.

Esse aumento de 33,6% colocou Alagoas no topo da lista dos estados que apresentaram maior aumento nas taxas de homicídios de mulheres. Na sequência aparecem Sergipe (31,2%), Amapá (24,3%), Santa Catarina (23,7%) e Rondônia (1,4%).

“Ao analisarmos a variação nas taxas de homicídios de mulheres de 2009 a 2019 tem-se um cenário um pouco diferente. Apesar de o Brasil ter apresentado uma redução de 18,4% nas mortes de mulheres entre 2009 e 2019, em 14 das 27 UFs a violência letal contra mulheres aumentou”, diz outro trecho do Atlas.

A taxa de homicídios de mulheres em Alagoas em 2019 foi a sexta maior do Brasil. O índice do país foi de 3,5%.

População negra sofre mais violência

A taxa geral de homicídios no Brasil, de mulheres e homens negros e não negros, caiu -43,7% entre 2009 e 2019. E na comparação de 2018 com 2019, houve redução de – 46,8%.

Em números absolutos foram 1.441 assassinatos em 2018 e 1.115 em 2019. A variação foi de -40,5% em 10 anos e de -46,5% nos dois últimos anos da pesquisa.

A população negra (incluindo homens e mulheres) é a maior vítima de violência no estado, principalmente os jovens.

“Ao analisarmos as proporções por raça/cor entre as vítimas de homicídios em 2019, podemos visualizar de forma mais evidente os níveis de desigualdade racial entre as UFs, especialmente porque em estados como Alagoas, o exemplo mais representativo, quase a totalidade das vítimas de violência letal são negras, mesmo com os negros constituindo uma proporção bem inferior a isso, 73,7% da população total”, diz um trecho do estudo.

Desde 2015, Alagoas é o estado com maior diferença nas taxas de mortes de negros e não negros.

“Em quase todos os estados brasileiros, um negro tem mais chances de ser morto do que um não negro, com exceção do Paraná e de Roraima, que em 2019 apresentaram taxa de homicídios de não negros superior à de negros. Alagoas, como desde de 2015, é o estado que apresenta maiores diferenças de vitimização entre negros e não negros, com taxas de homicídios de negros 42,9 vezes maiores do que as de não negros”, diz o Atlas.

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