quarta-feira, setembro 22, 2021
InícioColetiva Negras que MovemDas escolas informais no período escravista às redes de apoio em TI

Das escolas informais no período escravista às redes de apoio em TI

Em 2013, a chegada dos primeiros médicos e médicas cubanas do programa Mais Médicos foi acompanhada de vários episódios explícitos de racismo. Uma jornalista do Rio Grande do Norte na época publicou no Facebook: “essas médicas cubanas tem uma cara de empregada doméstica… Será que são médicas mesmo? Médico geralmente tem uma postura, tem cara de médico, se impõe a partir da aparência”. Esse caso em especial me chama atenção porque fala diretamente a nós mulheres negras e do espaço que a sociedade espera que nós ocupemos.

O espaço destinado à mulher negra no imaginário social está sempre ligado ao servir, ao trabalho doméstico, às cozinhas, o que não é uma desonra, mas todos sabemos que só recentemente as empregadas domésticas conseguiram direitos já consagrados há décadas a todas as outras categorias profissionais, de modo que sempre foi uma classe muito ligada ao subemprego ou ao trabalho informal. A imagem da mulher negra não está associada à imagem do sucesso profissional, das profissões mais bem remuneradas e ainda mais longe está das ciências e da tecnologia.

Dito isto, entendo que antes de pensar nós mulheres negras enquanto trabalhadoras da tecnologia é importante refletir sobre nós mulheres negras na sociedade. Ressalto aqui que não sou uma pesquisadora da área e os pontos que trago são apenas reflexões daquilo que leio, vejo, escuto e discuto dentro da necessidade de construir minha própria resistência. Não por acaso, RESISTÊNCIA foi uma das palavras mais ditas por mulheres como eu quando as questionei sobre o que é ser uma mulher negra em TI.

Estamos na intersecção de duas mazelas sociais: o racismo e o machismo que, muito além de estruturas de preconceito, são estruturas violentas de negação de direitos e de limitação de oportunidades – como bem disse Bell Puã, do Slam das Minas PE, “Queria eu, meu Deus, que racismo fosse só ser chamada de branquela”. Enquanto grupo social as mulheres negras compõem o grupo mais vulnerável quando analisamos o acesso à educação, à saúde, à moradia, à renda. As estatísticas são dolorosas e ainda mais dolorosas as estatísticas que analisam as mulheres negras enquanto vítimas de violência sexual, doméstica e obstétrica.

É esse o contexto social que precisamos muitas vezes transpor para alcançar as grandes oportunidades trazidas pelo grande avanço da computação pessoal, da comunicação móvel, da popularização da Internet e posterior expansão da área de TIC. E é nesse contexto também que surgem grupos de pessoas negras que propõem fortalecer e apoiar outras pessoas negras no processo de entrada, permanência e existência dentro desse mercado tão competitivo.

Nossa capacidade de mobilização e o nosso senso de comunidade são ancestrais. São iniciativas de homens e mulheres negras livres que ainda no Brasil escravista criam escolas informais para alfabetizar o nosso povo. O “nós por nós” vem de longe e a educação excludente é projeto político desde sempre. Se de um lado existia uma legislação, um decreto de 1854, que formalmente excluía a população negra do processo educacional e da produção intelectual, havia também resistências em forma de lápis e papel como a escola do professor Cesarino e suas irmãs, em São Paulo, e a escola de Pretextato, no Rio de Janeiro, que alfabetizavam clandestinamente meninas e meninos negros.

Hoje, noutro cenário mas com o mesmo intuito que é o de diminuir o impacto do não acesso, da não inclusão, da não oportunidade, da não eqüidade e todos os nãos que são dados à população negra, surgem potentes iniciativas de inclusão de pessoas negras e por mais diversidade na área de TI. Rapidamente lembro e cito quase uma dezena delas: PretaLab, AfroPyton, PretUX, UX para Minas Pretas, TecnoGueto, AfrOya Tech Hub. E se multiplicam.

Somando essas iniciativas a quase uma década da aprovação das cotas raciais nas universidades, o cenário do mercado de tecnologia vem mudando e é incrível ver essa mudança (lenta). Passando por diferentes funções, mas atuando quase sempre como designer, fazem quase duas décadas que trabalhar com tecnologia é o meu ganha-pão, o meu ofício, e durante a maior parte desse tempo, eu fui a única mulher negra na universidade, no estágio, no emprego e também nos eventos profissionais e acadêmicos.

Ocupar a tecnologia é também político. É nesse espaço, recheado de termos em inglês, onde surgem novos modelos de negócios, novas relações sociais, de trabalho e também de exploração, e onde são tomadas grandes decisões do nosso tempo. É mais que importante, é urgente que nós pessoas negras estejamos à frente também desse processo e possamos construir a inovação que queremos ver no mundo, uma inovação que nos inclua.

Taís Nascimento é designer com especialização em Design de Interação e graduação em Design Gráfico. Trabalha na área de interação e interfaces no CESAR e como professora e tutora na CESAR School, além de atuar em iniciativas voltadas por maior diversidade na área de tecnologia.
** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
RELATED ARTICLES