“Eu condeno a violência que há contra as mulheres, sejam as africanas ou não”, diz Oumou Sangaré

Artigo produzido por Redação de Geledés

Conhecida como Pássaro de Wassoulou por cantar as tradições de seu país, o Mali, a cantora é uma das maiores vozes africanas contra o sexismo

Oumou Sangaré é uma das maiores vozes africanas na luta contra o sexismo e o racismo. Originária da região Wassoulou, no Mali, Oumou canta desde os seis anos as tradições de seu povo. Com uma infância difícil em uma família poligâmica, o pai deixou a casa para viver com outra mulher quando ela tinha dois anos. A mãe, uma cantora, ficou responsável pelo cuidado de seis crianças, incluindo a menina Omou. Para conseguir o sustento da casa, a mãe começou a se apresentar em festas de casamento e batizado em Bamako e a menina a acompanhava. Foi justamente nestes eventos que Omou começou a soltar soltou sua impactante e linda voz.

Na adolescência, a ganhadora do Grammy de2010 pelo melhor vocal pop já alcançou notoriedade. Aos 16 anos, Oumou fez sua primeira turnê pela Europa como vocalista da banda Djoliba Percussions.

Esta é a segunda vez que Oumou vem ao Brasil. Neste show, que aconteceu no Sesc Pompeia, em São Paulo, durante os dias 04 e 05, a malinesa, aos 55 anos, apresentou o seu último álbum Timbutku, gravado durante a pandemia em sua casa em Baltimore, nos Estados Unidos, e consagrado pela crítica internacional. Nele, o som wassoulou traz o instrumento típico do Mali, o kamele ngoni, uma harpa de seis cordas associada à tradição rural de Wassoulou.

Como ela mesmo releva nesta entrevista a Geledés, falada em francês, ela conta como se tornou conhecida mundo afora como o Pássaro de Wassoulou, com suas mensagens em defesa das mulheres. Suas canções imprimem temáticas fortes, quando ela se posiciona contra a poligamia e a mutilação genital, comuns em sociedades do continente africano. Seu primeiro álbum Moussoulou (“Mulheres”), de 1990, vendeu 250 mil cópias. Mas foi em 1993, com o disco Ko Sira que ela adicionou o rock, o funk e o soul ao seu repertório, sem se distanciar da música eletrizante de Bamako.

Em sua trajetória, Oumou não se contentou em ser uma cantora famosa. Ela trabalhou para várias agências humanitárias, incluindo a Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO), para a qual se tornou embaixadora oficial. Aqui ela conta como ainda tem esperança em transformar a África.

Foto: Erika Mayumi – Oumou Sangaré, cantora do Mali é ativista em defesa das mulheres

Geledés– Deram-lhe o nome de Pássaro de Wassoulou, uma tradição de uma região do seu país musical, o Mali. Qual parte dessa tradição a senhora carrega em suas canções?

Oumou Sangaré – Nas minhas canções… Bom, deram-me o nome de pássaro, porque eu transmito mensagens. Sabe, de acordo com as tradições Wassoulou, os pássaros são mensageiros. Nós podemos escrever mensagens que prendemos nos pássaros. Eles as levam a inimigos ou a vizinhos. Transmito essas mensagens fortes através da minha música. Elas atravessaram fronteiras e é por isso que me chamam de Pássaro de Wassoulou.

Geledés – Há 35 anos Geledés – Instituto da Mulher Negra uma organização não governamental fundada e dirigida por mulheres negras identifica os diferentes tipos de violência que atingem a população negra, especialmente, as mulheres negras do Brasil. A senhora é conhecida mundialmente como uma combatente do racismo e sexismo. Gostaria que contasse como suas músicas expressam essa luta.

Oumou –  Desde o início da minha carreira eu denuncio a violência contra as mulheres. Inclusive, o nome do meu primeiro disco Moussoulou (“Mulheres”), lançado em 1990, eu falo sobre isso. Eu condeno a violência que existe contra as mulheres. A injustiça que existe contra as mulheres, sejam as africanas ou as mulheres em geral. Se eu não pensasse assim, porque eu denunciaria, cantaria, gritaria? Eu faço isso para que todos saibam que isso é injusto!

Geledés – Exatamente por esse seu trabalho e sua importância, a senhora é considerada como uma embaixadora da África, diante do mundo. Como mudar a imagem do continente africano, geralmente associado à pobreza e à fome?

Oumou – Como mudar essa imagem? Bem, acredito que já a estamos mudando aos poucos ou ao menos tentando mudar. Mas não é algo tão simples. Eu penso que é preciso trabalhar para isso. É preciso que cada um de nós evolua naquilo que faz e que os nossos dirigentes comecem a tomar consciência e pensem na população. É preciso que todos, todos os funcionários públicos e a população devem ter consciência sobre isso. Se cada um fizer o que deve ser feito, não vejo porque a África não se desenvolver. Há os jovens intelectuais, professores, técnicos, engenheiros. Tudo é uma questão de organização. Acredito em um futuro melhor porque a nova geração está começando a entender como é preciso se organizar para que realmente a África se desenvolva. Eu mesma evolui bastante no que faço. A África tem tudo para se desenvolver. Ela tem muitas riquezas no solo e uma cultura rica. O que falta? Organização. É isso. E dirigentes honestos.

Geledés – A senhora sempre foi contra os graves problemas que gangrenam a África, como a poligamia, as mutilações sexuais e os casamentos forçados. Como vê essas situações?

Oumou- Tudo está caminhando. No início não era fácil, mas quando falo sobre esses temas hoje, não estou mais só. Acho que estão me compreendendo. Sou muito mais acompanhada pelas mulheres e mesmo por alguns homens. É uma luta antiga, que está incrustada na sociedade africana. Estamos trabalhando para elevar o moral da nova geração, e isso está funcionando, funcionando muito bem.

Geledés – Conte-nos como foi crescer no Mali. Oumou- Foi bom (rs)… Bom e difícil ao mesmo tempo. Porque eu cresci em uma família polígama. Quando eu tinha dois anos, os meus pais se separaram e meu pai nos deixou a mim, a minha irmã e meus irmãos. Éramos seis com a minha mãe. Uma mãe que não frequentou a escola. Uma mãe que era muito valente e que se esforçou com dignidade para nos alimentar. E foi isso o que me tocou, porque ela era uma mulher muito forte. Ela nos ensinou que só podemos conquistar com o trabalho, que não dá para contar com ninguém, somente consigo mesmo. Quando ela se viu só, com seis filhos, teve que se esforçar para nos alimentar, para nos enviar à escola. Não foi fácil porque ela não contava com ajuda social, a vida não era fácil. Só depois eu consegui deixar a escola e cantar na rua para ganhar dinheiro. Porque eu tinha esse dom. Eu cantava para as pessoas e conseguia ganhar dinheiro. Mas ela não queria que eu fizesse isso. Ela não queria que eu deixasse a escola. Ela dizia: vá para a escola! Não queria que eu cantasse, queria que eu estudasse. Mesmo que ela não gostasse, isso a ajudava muito financeiramente. No final ela acabou deixando, porque a vida estava muito difícil para ela. A minha infância não foi nada fácil. Mas, também, eu fui guerreira, com muito sofrimento carreguei muita coisa nos ombros. O sofrimento te mata ou te deixa mais forte. Então acho que optei pela força, em vez do sofrimento.

+ sobre o tema

para lembrar

Geledés-Instituto da Mulher Negra lança campanha contra genocídio

Em 21 de março de 1960, mais de 20 mil sul-africanos protestavam pacificamente contra a Lei de Passe, instaurada pelo regime segregacionista apartheid e...

“O racismo estrutural opera dentro da USP”

A Universidade de São Paulo (USP), a maior universidade pública da América Latina, é racista e elitista, segundo a Pesquisa Interações na USP, realizada...

Mudanças climáticas e os impactos na saúde da população negra

Em 1989, Spike Lee lançou “Faça a Coisa Certa”, filme que revela o cotidiano de uma comunidade pobre em um subúrbio dos Estados Unidos. ...
-+=