A performance das palavras e seus desdobramentos políticos: é possível dizer tudo nas redes sociais (ou fora delas)?

“O que não pode ser dito, tem que ser calado”.

 Ludwig Wittgenstein

por Rosane Borges via Guest Post 

 

O enunciado destituidor do deputado federal Jair Bolsonaro dirigido a ex-ministra e “colega” de casa, Maria do Rosário; a aparente reedição de preconceitos contra nordestinos no sudeste e sul do Brasil; o racismo expresso em manifestações ao redor do mundo; a incontinência verbal no facebook… Esses episódios não têm apenas uma ligação subterrânea; fundamentalmente, compõem os elementos de uma mesma equação (Heráclito afirmara que uma conexão oculta é mais forte que uma evidência): o suposto direito de se dizer tudo nas redes sociais e nos ambientes materiais vem solapando as formas de interdição, que não podem, sequer remotamente, ser confundidas com censura. A tagarelice nas redes sociais, com enunciados que alcançam o inumano/desumano, é a tônica dos nossos tempos e pode ter sido uma traço peculiar, mas não exclusivo, do ano de 2014.

O fantástico mundo das redes sociais: novas ambiências para a estridência do mundo Tornou-se irrefutável o relevante papel das redes sociais para a troca informativa que ser quer veloz, em fluxo contínuo, para a instituição de um lugar em que a profusão de ações momentâneas, cambiantes e fluidas desenha um espaço plural de inovações comunicacionais possíveis, enredando-nos em nós de inventivas projeções. Uma das principais responsáveis por selar novos pactos comunicativos, visto que a relação emissor-receptor se modificou substantivamente, as redes sociais colaboram para que múltiplas formas do falar e do se expressar teçam o emaranhado discursivo do qual somos produtores e consumidores, os chamados prossumer, figura tão em voga nos nossos dias, consagrada tanto pelo mercado quanto pela academia.

Se quisermos enumerar os benefícios, eles avultam. Como sabemos, a mídia passou por uma mudança de paradigma: da lógica da radiodifusão, que predominou durante todo o século XX, experimentamos uma fase em que o controle sobre a produção e a distribuição já não dependem dos grandes conglomerados, permitindo o engajamento efetivo das audiências. O velho modelo um-para todos subverteu-se, e diversos arranjos tornaram-se possíveis: um-para-um, todos-para um… Resultado incontornável: uma quantidade gigantesca de materiais (visuais, verbais, sonoros) circulam nas diversas ferramentas e suportes de comunicação, um sem-número de atualizações e compartilhamentos inundam as famosas timeline em lapso de tempo curtíssimo… Há quem enxergue nessas atividades um desejo ancestral de dividir histórias: seja ao pé do fogo, no passado distante, ou em “nuvem”, no agora que não cessa de se reinventar, estamos sempre querendo relatar e compartilhar. Para Henri Jenkins, o papa da cultura da convergência, “o público não é mais visto como mero consumidor de mensagens preconcebidas e sim como agente criador de valor e significado. Nesse processo, ele escolhe, compartilha, reconfigura e remixa conteúdos de mídia de maneiras nunca antes imaginadas…”.

Ainda que esse fenômeno ganhe proeminência com as redes sociais, vários teóricos, a exemplo de Walter Benjamin, conseguem antevê-lo já na década de 1930. O cenário daquela época é esboçado da seguinte forma:

Cada pessoa, hoje em dia, pode reivindicar o direito de ser filmado. (…). Durante séculos, houve uma separação rígida entre o pequeno número de escritores e um grande número de leitores. Com a ampliação gigantesca da imprensa, colocando à disposição dos leitores uma quantidade cada vez maior de órgãos políticos, religiosos, científicos, profissionais e regionais, um número crescente e leitores começou a escrever, a princípio esporadicamente. No início, essa possibilidade limitou-se à publicação de sua correspondência na seção “Cartas aos leitores”. (…). Com isso, a diferença essencial entre autor e público está a ponto de desaparecer. Ela se transforma numa diferença funcional e contingente. A cada instante, o leitor está pronto a converter-se num escritor (1994, p,183-4).

Com esses rearranjos monumentais na ação comunicativa, semeados desde as primeiras décadas do século XX, como nos informa Benjamin, somos acometidos pelo desejo incontido de relatar/enunciar. As redes sociais vêm estabelecendo um novo grau na compulsão de emitir de tal modo que parecem cobrir o  tecido de nossa existência (estar midiaticamente morto é um medo contemporâneo, o que nos leva a pagar o passaporte de ingresso à moderna praça da visibilidade, expressando, muitas vezes, acontecimentos de fórum privado, acentuadamente da esfera íntima, com ações de bastidor ganhando status de cena). No facebook e assemelhados temos o dever de tudo ou quase tudo dizer e mostrar. E como falamos! Mas o que tanto falamos? De tudo um pouco. Segundo pesquisadores, nunca se falou tanto no mundo: “Só nos Estados Unidos houve um aumento de quase sete trilhões de palavras faladas, a partir da invenção das chamadas novas tecnologias (facebook, Twitter, watzap e outras conversas online). Em 2013, o número de usuários da internet no mundo giraria em torno de 2,6 bilhões (número que, esperava-se, deveria dobrar na década seguinte). A cada minuto, essa multidão disparava, em 2013, 168 milhões de emails, via 1,3 milhão de vídeos no youtube e fazia 370 mil chamadas no Skype . Isso a cada 60 segundos, somente a cada 60 segundos”.

Em meio às maravilhas e benefícios da técnica (a técnica, originariamente tem o destino de decidir bem), pomos sob o exame da crítica as redes sociais para, a partir desse lugar, pensar a marcha do mundo nos nossos dias; examiná-las criticamente, aqui, corresponde ao próprio sentido etimológico do termo crítica, que é o de pôr em crise. Um dos aspectos que nos permitem pôr as redes sociais em crise diz respeito à estridência do mundo, visto que nessa ambiência comunicativa sentimo-nos livres para tudo dizer.

Eis os sintomas da crise: sob o manto da liberdade de expressão, do fim da censura (expediente tão caro para nós) proliferam discursos que legitimam racismos, xenofobia, mixofobia, sexismo e múltiplas formas de discriminação. Sabe-se que a cada ato que infrinja os princípios constitucionais de respeito ao outro existem mecanismos para coibi-lo. Sob esse prisma, deve-se, portanto, reservar às pessoas o direito de dizer tudo. Mas, a questão que me mobiliza neste artigo não reside aí. O que pomos em crise tem raízes ainda mais profundas, com tentáculos que não se ramificam exclusivamente no âmbito da legislação; o que pomos em crise liga-se diretamente aquilo que nos dá estatuto de humano. Não podemos ficar indiferentes ao fato de que os dizeres destituidores transmitidos em escala vertiginosa na internet e fora dela ganham eco na sociedade de tal forma a constituir o agir comunicativo da esfera pública. É de admirar, por exemplo, que as palavras mal-ditas de Bolsonaro, um falastrão contumaz, para além das distorções jurídicas que provocam, não sejam vistas como algo que fere de morte o pacto de civilização, de onde emerge o humano.

Considerando que toda palavra, por definição, encerra uma palavra de ordem, como diz o filósofo Gilles Deleuze, não temos como ignorar o primado segundo o qual os enunciados “operam como direcionamento, num processo educativo, a tomadas de posição e obrigações sociais” (Gomes, 2003). Essas tomadas de posição mostram que os enunciados não se reduzem a mero instrumento do comunicar, mas, antes, configuram-se em dispositivos que vão delimitando campos, orientando práticas, definindo e ordenando a realidade.

O papel político das redes sociais, para além de sua dimensão informativa À performatividade das redes sociais, que nos permite produzir textos e enunciados autorais, interagir em tempo real com o nosso interlocutor, desempenhar mais rápido e melhor nossas atividades, soma-se um aspecto político: num país em que a cultura do silêncio foi a tônica durante longevo tempo, em que o jogo comunicativo (tutelado pelos conglomerados de informação e entretenimento) foi desigual e tiranicamente decidido por poucos, o poder de emissão é algo realmente tentador. (Um breve desvio: há quem considere que a banalização da experiência cotidiana advém desse suposto “poder” e nos faz abrir mão de critérios estéticos: postagens de prato de comida, selfies sucessivos, imagens de pessoas nas pistas de pouso dos aeroportos como prova inequívoca de que viajaram ou estiveram em algum lugar são manifestações kitsch, bregas, que vulgarizam a partilha do sensível, mas que nos convertem em publicistas, o que não deixa de ser fascinante).

De uma cultura democrática espera-se equilíbrio na ação comunicativa, hoje densamente midiatizada. Direito à comunicação e, nos dias de hoje, à emissão, tornaram-se um imperativo. De acordo com Marilena Chauí, a democracia possui uma forma socio-politica definida pelos princípios da isonomia (igualdade dos cidadãos perante a lei) e da isegoria (direito de todos para expor suas opiniões). Não é a toa que o direito à imagem, à honra, à privacidade, à informação e à liberdade de expressão estão inscritos na lápide dos direitos fundamentais, intensamente requeridos nos dias que correm e mais facilmente alcançáveis por força dos formidáveis recursos de comunicação.

Portanto, quando falamos em interdição não estamos evocando a censura, o autoritarismo ou qualquer tipo de cerceamento da liberdade de expressão, que deve ser um valor supremo, inegociável (enquanto termino esse texto, o mundo se vê estarrecido com a bárbara notícia do ataque terrorista ao semanário francês “Charlie Hebdo”).

O embaralhamento e/ou a equivalência dos dois termos (interdição/censura) vem atingindo em cheio o coração daquilo que possibilita a assunção do humano e a consolidação do pacto civilizatório. Dizer interdição, no campo da linguagem, é aceder ao princípio de que a nós, mulheres e homens, não nos é dada a possibilidade de atravessar fronteiras abertas pelo mundo sob pena de transigirmos nossa humanidade.

Decididamente, não se pode dizer tudo que se pensa ou que se quer. Lembremos os ensinamentos de Freud, a ordem simbólica se faz por cortes e interdições por onde a sociabilidade se torna possível e se tece o humano, e caminhemos com Deleuze, “um enunciado realiza um ato e o ato se realiza no enunciado”.

Quando lembramos alguns trágicos acontecimentos que foram gestados nas redes sociais e ganharam materialidade nas ruas, a frase de Deleuze ganha profunda dimensão política e nos convida a ficarmos atentos à plataforma ruidosa das redes sociais. Adauto Novaes advertiu que “nenhum espírito pode ficar indiferente à tagarelice do mundo”. Como esquecer a sanha persecutória a Fabiana Maria de Jesus, no facebook e congêneres, que culminou no seu desumano linchamento no Guarujá? Os comentários e curtições em relação à vítima apontavam para a tragédia, que se anunciava fora das fronteiras do território de onde supomos habitar. Esfolar, trucidar, degolar, decapitar, escalpelar… Esses e outros verbos compuseram a galeria de enunciados sem que alguma voz sequer denunciasse o inumano que eles comportam. A morte de Fabiane cumpriu-se, infelizmente, aos modos do que dela se enunciava. A celebração da barbárie pela turba ensandecida pareceu ser o mores da comunidade que legitimou o ato.

Os linguistas nos ensinam que os enunciados performativos são aqueles que realizam o ato na exata medida em que os pronunciamos (os verbos abençoar, prometer, benzer são exemplos clássicos). Insistimos com Deleuze e defendemos a ideia de que para além dos enunciados performativos, em sentido estrito, as palavras em geral implicam desdobramentos. Pelo que se lê/ouve/vê nas redes sociais não é forçoso afirmar que habitamos um mundo perigoso, onde uma incubadora de ações que transige do humano se insinua por meio de palavras. O(a) leitor(a) poderia objetar afirmando que nesses espaços nem tudo é conspiração contra a ordem simbólica e que linchamentos, racismos, xenofobia não são decorrência das redes socais… Na ambiência digital também se exerce a ética do bem-dizer. O que é verdade.

Porém, é prudente pensarmos que a tecnologia é uma empresa/máquina prodigiosa de fabricar mitos. Servos da ideia de progresso, a cada invenção tecnológica enfileiram-se argumentos que demonstram o quanto avançamos na escala evolutiva. Assim como o mito de Prometeu, os artefatos tecnológicos e informativos acenam para um performatividade cada vez mais eficiente e, porque não, próxima da perfeição. Repetimos: além dos benefícios e conquistas, o desempenho comunicativo das redes sociais também comporta aspectos por onde se sacrifica o humano e por onde se pode encontrar algumas vias de reflexão para as questões que nos desafiam e convidam, em caráter de urgência, a Política para reassumir o centro do debate. Mais do que instantaneidade de informações, compartilhamentos, trocas online, plasticidade dos conteúdos, as redes sociais sinalizam para pedaços de nossa história em que se divisa o projeto de civilização com o qual (des)acordamos. Apuremos nossa audição para os ruídos que de lá nos chegam, frequentemente sancionados pela experiência cotidiana.

 

*Jornalista, professora doutora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), pós-doutoranda em ciências da linguagem, integrante da Cojira-SP.

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