Prática de blackfishing deixa mulheres negras à margem da sociedade

Assunto voltou as redes sociais após novos casos. Especialista indica que a prática pode ser vista como apropriação cultural

Nos últimos meses, as redes sociais serviram de palco para a discussão a respeito da prática de “blackfishing” feita por celebridades e influenciadores brancos. O termo, em inglês, remete à apropriação da cultura negra.

O assunto voltou ao debate após novos casos em que artistas brancos foram confrontados por tentarem imitar traços, tom de pele, cabelos e estéticas negras. O de maior repercussão foi o da ex-integrante do grupo feminino britânico Little Mix, Jesy Nelson. Ao lançar o videoclipe para a música “Boyz”, o publicou notou que a cantora adotou uma estética de visual que remetia a cultura negra.

Ao se defender dos comentários, Jesy Nelson afirmou que “não tinha intenção de ofender as pessoas de cor”. A cantora acrescentou que pretendia prestar uma homenagem para as principais referências musicais que tinha enquanto criança. No entanto, especialistas e estudiosos das questões raciais não concordam com esse argumento.

A doutora em comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), Kelly Querino, elucida que que o “blackfishing” e a apropriação cultural são práticas que se assemelham. “Aparecer no showbusiness imitando a personificação negra é legal e faz você ter visibilidade. Mas quando acontece casos de racismo, essas mesmas pessoas não se posicionam”, alega.

A especialista acrescenta que as necessidades dessa população são outras: “Pessoas negras não precisam dessa homenagem. O que a gente precisa é a erradicação do racismo”, pontua.

À margem da sociedade

Ponto pouco discutido sobre o “blackfishing” é como a prática afeta diretamente as mulheres negras. Para exemplificar como a situação envolve em diferentes níveis esse grupo, Kelly Querino traz o caso das cantoras Anitta e Ludmilla.

De acordo com a professora, enquanto a primeira, que se apropria da cultura negra, é aclamada, a situação não é a mesma com Ludmilla. “Ela é supercontestadora, porém, sempre fica como a preta raivosa. As pessoas racistas tendem a colocar a gente nesses lugares”, indica.

Ela acrescenta que essa prática não é recente, e cita o caso da cantora norte-americana Nina Simone, que usou a sua voz firmemente na luta pelos direitos civis. Apesar de todo sucesso, a estrela terminou a vida no ostracismo. “Você só quer usufruir dos benefícios da negritude, mas não quer sentir na pele todas as opressões de ser negro em uma sociedade racista”.

Ser negro, sem ser, está na moda?

Quando se pensa em alguém que está lucrando com a prática de “blackfishing“, o sobrenome Kardashian logo aparece. A família foi questionada diversas vezes por se apropriar de traços e tom de pele negras. O aumento na procura de cirurgias e procedimentos estéticos para aumento de lábios, seios e glúteos, é referenciado como efeito da influência do clã.

Para a publicitária Weyni Odunaiyá, de 24 anos, ser negro, sem ser, está na moda. Ela acredita que a prática de “blackfishing” é mais uma maneira de se apropriar da cultura afro. Mas alerta que “as pessoas brancas adoram a cultura negra; os penteados, roupas, menos a pessoa preta. Por isso, é muito bom se apropriar da cultura preta sem ser”, expõe.

A jovem brasiliense observa a situação como mais uma forma de apagamento das narrativas de mulheres negras, no entanto, reflete que não enfrentou situações em que se deparasse com o preterimento por ser preta em oportunidades de trabalho.

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