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Ancestralidade: Agô meus Pretos Velhos

Durante o período escravocrata da história brasileira, os escravos domésticos tinham um tratamento menos cruel em relação aos que trabalhavam fora da “Casa Grande”. As amas- de- leite, ainda que na condição de escravas, criavam vínculos de afetividade, surgindo, assim, a forma peculiar e carinhosa com que a nossa literatura, embora de maneira romantizada, registra a presença da “Mãe Preta”. Estas mulheres amamentaram e salvaram a vida de incontáveis “sinhozinhos”.

Enviado por Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite via Guest Post para o Portal Geledés

Zelando pelo o sono dos filhos do seu senhor, ao perceber a indesejável presença de alguma doença, utilizavam-se de benzeduras e rezas a seus orixás, principalmente, quando se esgotavam as possibilidades de cura pela Medicina tradicional. Estas práticas eram comuns, embora a Igreja considerasse a religiosidade do escravizado pura superstição e ligada a espirítos malignos. Atualmente, as pretas velhas prestam o seu trabalho fraterno, no campo espiritual, nos milhares de terreiros de matriz africana espalhados pelo Brasil. A figura do casal, pai joão e mãe Maria, com seus patuás , rosários e arrudas, está presente no imaginário popular como verdadeiro ícone da nossa diversidade religiosa..

Em solo brasileiro, os ritos africanos se encobriram sob o véu do sincretismo religioso, visando a preservar o “Culto aos Orixás” da perseguição por parte do poder dominante, representado, principalmente, pela Igreja Católica e pelos senhores de escravos.

Ainda hoje, os orixás são associados a santos católicos, a exemplo de Xangô (Orixá da Justiça) que corresponde no sincretismo a São Jerônimo ou Oxalá que nos remete a Nosso Senhor do Bom Fim. Ao longo dos séculos, consolidou-se este sincretismo no imaginário religioso, embora o protesto de alguns segmentos que buscam um culto mais próximo da ancestralidade africana. Infelizmente, embora as incontáveis lutas enfrentadas, as religiões de matriz africana, ainda, sofrem o preconceito e a intolerância religiosa por parte de setores da sociedade mais conservadores e reacionários em relação a livre manifestação da fé que é garantida pela nossa Constituição, pois somos um Estado laico.

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Um exemplo de ancestralidade e de resistência, no aspecto espiritual, é a presença da linha das Almas ou dos Pretos Velhos. Atuante nos rituais das religiões de matriz africanas, os pretos velhos são incorporados pelos iniciados e sacerdotes, a fim de ajudar na solução dos mais diversos problemas de quem os procura. Nestas sessões espirituais, é praticada, como denominam seus adeptos, a caridade. Na Umbanda, muitas entidades que não vivenciaram a cultura africana, quando estiveram encarnados no orbe físico apresentam-se na forma de pretos velhos, como exemplo de humildade e fraternidade universal. Muitas vezes, na realidade, trata-se de médicos e cientistas que se manifestam nas sessões com o arquétipo de um preto velho.

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A umbanda foi fundada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, no dia 15 de novembro de 1908, quando esta entidade (guia) foi incorporada pelo médium Zélio de Moraes. Naquele dia, nascia uma religião genuinamente brasileira, na qual os espíritos de indígenas e negros foram acolhidos para exercerem a sua missão evolutiva na prática da caridade junto aos necessitados. Assim surgiu, no Rio de Janeiro, a primeira Tenda (templo) de Umbanda, cujo nome era Nossa Senhora da Piedade. Já nas sessões espíritas de fundamento Kardecista, cuja doutrina foi importada da Europa, seus dirigentes, à época, consideravam estes espíritos de categoria inferior e muito “atrasados”, portanto não sendo aprovada, durante as suas sessões, a presença espiritual destas entidades.

Considero que a Umbanda surge como uma revolução em relação ao conservadorismo preconceituoso e elitista que se reproduzia, também, no espaço religioso, embora a máxima de Cristo “Amai-vos uns aos outros”. É dentro deste universo fraterno da Umbanda que os pretos velhos passaram a ocupar um lugar de respeito e admiração, pois representam a sabedoria e a experiência adquiridas ao longo dos anos. Sua generosidade, carinho e aconselhamento , quando incorporados em seus médiuns, remete-nos à figura dos nossos avós.

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Os pretos velhos representam a ancestralidade das nossas raízes africanas que, infelizmente, foram enterradas nos porões da memória nacional por uma historiografia oficial que privilegiou apenas as elites num país que realizou a sua independência (1822) e continuou escravocrata, por longos anos, restando a milhares de brasileiros a miserabilidade, a falta de instrução e a invisibilidade social. Sofremos, ainda, as consequências de um Brasil que, também, realizou uma abolição tardia (1888) e sem um planejamento quanto à inclusão social.

O escravizado ganhou a liberdade, mas não o acesso à cidadania plena. Devido a esta abolição inconclusa, o Movimento Negro defende uma segunda abolição, pois a primeira foi uma falácia. Seu legado foi a exclusão social e um racismo, na maioria das vezes, maquilado por um discurso, ou melhor, pelo mito da democracia racial, que não corresponde à realidade social do negro brasileiro.

Os pretos velhos, com seus ensinamentos pautados pelo amor fraterno, levam-nos a refletir acerca dos reais valores humanos que a atual sociedade materialista e excludente abortou em nome de interesses oligárquicos tão presentes, ainda, em nosso Brasil. Infelizmente, a escravidão, ainda, assombra-nos, reinventando-se com mecanismos de exploração que ferem o mais sagrado direito do ser humano que é a própria vida!

Salve os pretos velhos com seus cachimbos e arrudas, trazendo de Aruanda um amor infinito para compartilhar. Agô meus velhos..

Bibliografia

AZEVEDO, Janaina. Tudo o que você precisa saber sobre Umbanda. São Paulo: Universo dos Livros, 2008.

FERREIRA, Walter Calixto. Ago-iê, vanos falar de orishás? Porto Alegre: Renascença, 1997.

PRESTES, Míriam. Umbanda: crença, saber e prática. Rio de Janeiro: Pallas, 2004.

TRINDADE, Diamantino Fernandes. Umbanda e sua História. São Paulo: Editora Ícone, 1991.

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