Memórias sobre escravidão e liberdade em Goiás e no Distrito Federal

Uma análise da dinâmica histórica, social e política na Província de Goiás ao longo do século XIX revela o envolvimento ativo de pessoas negras escravizadas, libertas e livres em busca dos seus diversos sentidos de liberdade. Dentro deste abrangente panorama de experiências negras, emerge a saga da matriarca Sá Joaquina e sua descendência.

Um senhor da cidade de Planaltina – a mais antiga do Distrito Federal, fundada oficialmente em 1859 –  compartilhou algumas narrativas sobre a sua família com o Aquivo Público do Distrito Federal, no ano de 1998. Erasmo Castro, que nasceu no ano de 1930, contou que aos nove ou dez anos de idade ele ainda convivia com “muita gente que era de escravos” do seu avô Valeriano de Castro. Segundo o relato, depois de passados 52 anos da abolição da escravatura, seu Valeriano de Castro ainda deixou esses ex-escravos “à vontade” em suas terras. Ele também atenua o papel de seu avô, que era traficante de escravos, na medida em que diz que ele buscava essa gente [negros escravizados] nas roças para viver junto com ele.  

Dentre esses relatos, estava a parte da história de uma família de mulheres negras que serviram à família Castro no final do século XIX e início do século XX. Em seu depoimento, Erasmo se refere a quatro gerações da linhagem de uma mulher centenária escravizada por sua  família. Essa mulher era chamada de Sá Joaquina e sua descendência seguia composta por sua filha Francisca, sua neta Josefa, sua bisneta Rosita e seus tetranetos. Eles viviam “todos juntos”, como disse Erasmo. Ele ainda conta, em tom bastante saudosista, que todas elas eram mulheres pretas altas, fortes e belas e que, quando ele era criança, Sá Joaquina já alcançava os cento e um ou mesmo cento e dois anos de idade. E que mesmo com a idade bastante avançada, permanecia com a família Castro, realizando várias tarefas domésticas, ao mesmo tempo em que partilhava suas memórias sobre o passado. Erasmo disse que a matriarca possuia uma gargalhada contagiante e costumava divertir a todos contando relatos sobre as “festas da época da escravatura”.

Há quatorze anos, ao ler este relato de Erasmo de Castro para escrever o meu trabalho de conclusão de curso da graduação, eu não consegui encontrar as experiências de Sá Joaquina, Dona Francisca, Dona Josefa, e Rosita. Eu mal consegui perceber que essa lista de nomes se tratava de várias gerações de uma mesma família escravizada. Só enxerguei as lacunas, os vazios, a luta de classes, o racismo, a subserviência e a violência que insurgiam sobre a vida de pessoas negras. Mas, ainda assim, este foi o embrião da reflexão que agora exponho, a partir da finalização da minha pesquisa de mestrado.

Hoje, eu consigo vislumbrar a existência de agências micropolíticas nas ações estabelecidas por essas mulheres, para além de uma simplista submissão às relações de poder vigentes. Segundo Erasmo de Castro, Sá Joaquina era uma anciã de mais de cem anos de idade, que se dedicava à família que escravizara a ela e seus descendentes, divertia as pessoas contando “histórias sobre as festas da escravatura”. As gargalhadas de Sá Joaquina poderiam estar atreladas às suas estratégias cotidianas para se tentar um percurso menos doloroso para si e para os seus. Isso nos faz entender que os mecanismos de resistência eram diversos, plurais e não se configuravam apenas em contextos de movimentações explícitas de revolta. 

Essas mulheres engendraram relações de afetividade junto às pessoas da casa grande e fizeram nascer flor na senzala, como diria Robert Slenes. Ao perceber a existência desta flor representada pelo sorriso, pelo cuidado e pela atenção de Sá Joaquina e suas descendentes, finalmente eu consegui, seguindo o exemplo de Barros de Castro, “levantar uma ponta do véu de ignorância que encobre a atuação dos escravos como agentes históricos, capazes de traduzir os seus interesses […] e exercer pressões no sentido de transformação do regime que os oprime” (CASTRO apud SILVA e REIS, 1989, p. 20).

As sutilezas do cenário apresentado por seu Erasmo sobre as lembranças que ele tinha sobre Sá Joaquina e sua descendência não são capazes de sobrepujar a violência do escravismo em nenhuma esfera. Essas lembranças refletem a agência micropolítica de mulheres negras a partir das suas dinâmicas de sociabilidade e de suas estratégias para driblar as contradições do sistema no contexto de suas próprias experiências em cativeiro. 

Entendo que a própria vida de Sá Joaquina e seus descendentes tenha sido a flor dentro da senzala: a flor representada pela vida longa junto aos seus. Tudo isso seria privilégio de um escravismo ameno ou estratégia de sobrevivência dentro do cativeiro? Seriam os sorrisos, as histórias contadas e a docilidade de Sá Joaquina os instrumentos utilizados por ela para que pudesse permanecer junto à sua família? De quantas maneiras ela deve ter reinventado a própria existência para conseguir chegar aos seus mais de cem anos de vida? Quantas outras manobras ela e seus descendentes conseguiram articular e o que mais conseguiram negociar? Será que, como pensou Robert Slenes (SLENES, 2011, p. 55) sobre outras famílias escravizadas, “no interior dessa família, nas experiências e memórias que engendrava e transmitia, se esboçava uma ‘consciência’ cativa, no fundo desestabilizadora do sistema escravista”? 

Tomando de empréstimo as palavras de Muniz Sodré, a existência de Sá Joaquina e sua família é uma representação do “agir político grupal [que] lastreia o pacto simbólico implícito nas formas de organização comunitária dos descendentes de africanos” (SODRÉ, 2017, p. 205). Resta pensar sobre em que medida esse pacto simbólico estabelecido pela família de Sá Joaquina não representava alguma dose de auto sacrifício. Que tipo de felicidade Sá Joaquina conseguiu forjar ao continuar servindo a uma família mesmo após os seus cem anos de idade? Afinal, ela já centenária, ainda varria, lavava vasilhas, cozinhava e cuidava das crianças. Não apenas ela, mas também quatro gerações de sua família. 

Além disso, historiadores e historiadoras da escravidão e da liberdade hão de concordar que se trata de um raro caso de tamanha longevidade por parte de uma figura a qual, por esse pequeno fragmento de sua história, é possível perceber a sua rotina de luta pela sobrevivência e por espaços de liberdade. Qual teria sido o status adquirido por Sá Joaquina entre os seus, tendo em vista o legado africano de respeito à ancestralidade e à sabedoria dos mais velhos? Por quantas outras incansáveis vezes ela não havia tentado escapar da escravização que, possivelmente, perdurou de maneira ilegal? Teria ela alguma consciência de que o tempo de servidão à família Castro havia excedido? Num exercício de imaginação histórica, é possível vislumbrar Sá Joaquina, aos seus mais de cem anos de idade, enquanto uma preta velha respeitada e valorizada pela sua sabedoria, pelos seus conhecimentos, enquanto uma anciã dotada de autoridade no contexto dos seus espaços de sociabilidade. 

Outras questões surgem. Em que medida essa relação não permanecia sendo de escravidão, considerando que já havia transcorrido 52 anos da abolição? Creio que se houvesse, de fato, uma convivência derivada apenas do afeto, não permitiriam que uma anciã de mais de cem anos continuasse trabalhando em serviços domésticos pesados, ao mesmo tempo em que cuidava das crianças e as entretinha com histórias sobre o cativeiro. Caberia aqui a percepção de Rodrigo Weimer de que “livre ou não, uma escrava sempre será uma escrava” (WEIMER, 2013, p. 130)?

Inclusive, nessa árvore genealógica, é possível que apenas Sá e sua filha Francisca tenham vivido a escravidão institucionalizada, de fato. Sua neta Josefa, sua bisneta Rosita e seus tetranetos já haviam nascido livres. Ou seja, mesmo livres, essas mulheres e crianças ainda viviam sob a égide do escravismo, seja por meio da realidade vivida e compartilhada por sua matriarca Sá Joaquina, ou por meio das relações de trabalho que foram estabelecidas junto à família Castro. Todas essas mulheres “pretas, altas e bonitas” que aparecem no enredo traçado por Erasmo já eram pessoas livres há muitos anos.


Thaís Lopes Rocha

Mestra em História Social pela Universidade de Brasília, sob a orientação da Profa. Dra. Ana Flávia Magalhães Pinto (2023); Especislista em Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça (GPPGeR)/ Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (2016); Graduada em História pela Universidade Estadual de Goiás (2009); Professora de História da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal desde 2011; Filiada à ANPUH; Membra do GT Emancipações e Pós-Abolição (DF/GO); Membra da Rede Historiadorxs Negrxs; Membra do Conselho Científico “Por falar em Liberdade: Ensinando Histórias no Plural”, no Departamento de História da Universidade de Brasília. E-mail: [email protected]; Instagram: @tha.hist


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