quinta-feira, fevereiro 25, 2021

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Arquivo Pessoal

Estratégias Coletivas de Liberdade em Goiás do séc. XIX

As estratégias de liberdade desempenhadas pelos escravizados tiveram muitas dinâmicas. Em algumas oportunidades, era a carta de alforria o recurso daqueles que buscavam conquistar a saída da escravidão. Por meio desse instrumento jurídico, o escravizado poderia alterar seu status, passando-se a liberto. Vale lembrar que a experiência colonial portuguesa, signatária do Direito Romano, definia o status do filho pelo ventre da mãe, ou seja: filhos de mães cativas eram considerados escravos; ao passo que aqueles gerados por mães livres ou libertas eram considerados livres.  Como fonte estratégica para recuperar nossas histórias, as cartas de liberdade dispõem de informações sobre as personagens históricas como: procedência, ofício, preço e, também, as formas de concessão. A alforria decorria de um acordo entre senhor e escravizado, sendo essencialmente uma questão privada. Mas estes arranjos também se tornavam possíveis em decorrência de relações coletivas, as verdadeiras redes que permeavam as várias fases das negociações.  Para...

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Lorena Lacerda (Foto: Reprodução/ Instagram @lorenlacre

Alisamento, corte químico, tranças e turbantes: Do processo racista ao coroamento estético-racial

Eu sou Lorena Lacerda (@lorenlacre): mulher, negra, cis, soteropolitana militante, feminista negra, museóloga de formação, trabalho numa escola Afro-brasileira chamada Escolinha Maria Felipa, localizada em Salvador. Escrevo textos para internet sobre feminismo, antirracismo, estética, moda e política. Amo música e sou colecionadora de vinis. Dentro do universo da cultura do vinil, eu pauto sobre a representatividade das mulheres dentro da cena que, ainda, infelizmente, é muito machista e racista como em qualquer esfera social. Dentro ainda do que eu sou, também exerço o ofício ancestral e político de ser turbanteira. Me construí turbanteira diante do percurso doloroso sobre tornar-se “mulher negra”. Foi um processo de redescoberta das minhas raízes, que passei por transição capilar através das tranças e de buscar referências esteticamente negras. Após assumir os meus cabelos naturais, comecei a buscar possibilidades dentro do universo “cabelo crespo”. A sociedade eurocêntrica, branco-normativa, nos ensinou que a nossa única via de...

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(Foto: @VICTOR/ nappy)

Sobre corpos que não se encaixam: as peças sobrantes de um quebra-cabeça exposto em rede nacional

Talvez, no fim, seja só sobre isso, sobre espaços que não nos cabem, onde nunca fomos aceitos. Não fomos aceitos na casa grande, e nem conseguimos sobreviver a ela, muito menos aos senhores, as sinhazinhas e aos capitães do mato. Muitos de nós tentaram, iludidos pelo brilho nos olhos de se alimentar com os restos de banquetes, ou de dormir nos pequenos cômodos dentro da casa grande. Corpos que invariavelmente foram vilipendiados, usados, expostos e também marcados pelo açoite e pelo extermínio, mesmo que tardio, se comparado aos corpos habitantes das senzalas. 133 anos depois da falsa libertação dos escravos, nossa existência é ainda deslegitimada e somos mortos objetiva e subjetivamente todos os dias, em todos os confinamentos…eu disse todos os confinamentos!! Prisões, hospitais psiquiátricos, clínicas ditas de reabilitação para usuários de substâncias psicoativas, reality shows. Ao vivo e em cores, para que todos possam ver e tomar como exemplo...

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Prof. Dr. Ângelo Oliveira (Foto: Enviada pelo autor ao Portal Geledés)

Racismo pandêmico: uma história de asfixias, mortes e apatias

Eu não consigo respirar! Essas palavras foram sussurradas quase sem fôlego por Jorge Floyde e João Alberto no instante em que estavam sucumbindo, asfixiados pelo que chamo de operadores do Estado e da iniciativa privada, para assegurarem a estrutura racista/supremacista fundante da classe dominante. Os ares colonizatórios destroem nossos pulmões. A população negra no mundo vem sendo asfixiada desde o processo de escravidão que mortificou as almas e os corpos do povo negro para dar “vida” a um novo modo de existência que podem ser compreendidos como mutações coloniais. Os processos de desumanização destroem de dentro pra fora. Primeiro, causa um estranhamento de si, ou seja, a epiderme identitária que contém a formação subjetiva do sujeito é rasgada. Flutuantes e desagregados de si, mulheres e homens negros perdem suas individualidades. Essa é a asfixia da alma! Haverá, pois, justiça para essa morte invisível? Sabemos que a causa primeira dos processos...

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(Foto: REUTERS)

Mas afinal de contas, o que deseja a luta antirracista?

As vivências e escrevivências nos revelam caminhos contemporâneos, com novas e louváveis iniciativas, porém, permanecendo intrínsecas, velhas práticas já denunciadas pelas nossas referências, tais como Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro. O objetivo é a luta antirracista, mas o que deseja essa luta infidável? Certamente, muitos responderão automaticamente essa indagação, enfatizando sobre a construção de uma sociedade igualitária. A dúvida é se esse desejo de igualdade está imbricado na minimização das categorias de opressão de gênero e de classe. Dá para lutar contra o fim de uma opressão que é estrutural e alimentar outra? Isso auxilia ou reforça a desumanização? Afinal de contas, não é justamente a luta antirracista que se estrutura na desconstrução da ideia de modelo de sujeito universal,que aborda sobre respeito às diferenças? Aqui estamos falando dos quadrados onde somente uma bandeira pode ser hasteada. Assim, temos que deixar de sermos pretas para pautar sobre ser mulher, temos...

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Lucas Penteado (Foto: Reprodução/ TV Globo)

Homens Negros e suas sexualidades: A saída de Lucas Penteado do BBB

Hoje eu vim falar sobre BBB. E eu sei que muitos de vocês já devem estar querendo fechar a página aqui mesmo. Seja por acharem o programa, e as pessoas que o assistem, fúteis — Enxergando qualquer tentativa de estabelecer debates mais sérios sobre o que acontece na casa como um exagero — seja porque você está assistindo o programa e ficando mal com os horrores que estão sendo feitos e ditos lá dentro. Eu te entendo. Independentemente de qual dos dois grupos você esteja, eu te convido a ficar até o final do texto. Vou me esforçar para que valha seu tempo. Para quem não tem acompanhado a televisão e a internet nos últimos dias (e por isso, imagino, tenha conseguido manter pelo menos parte da sua sanidade), a vigésima primeira edição do Big Brother Brasil vem dando o que falar. Primeiro por ser a edição com maior participação...

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Arquivo Pessoal

Mobilizações de professores negros em Salvador na Primeira República

Em 16 dezembro de 1912, a localidade do Politeama, no centro de Salvador estava movimentada com a presença de estudantes, professores, professoras, jornalistas, autoridades e o público em geral que prestigiavam a abertura da exposição anual de trabalhos escolares do ensino primário público da cidade. O intendente municipal (o prefeito daquele tempo) estava presente compondo a tribuna junto com outras autoridades e o professor Vicente Ferreira Café. Vicente Café era um homem negro, um docente influente, que tinha como característica o bom manejo das palavras e sua oratória. Na ocasião, ele figurava como representante do professorado e fora convidado para proferir um discurso que contemplasse aquele momento festivo. Professor Vicente Ferreira Café. Fonte: A Tarde, 19 de junho de 1924, p.1. O professor Café em seu discurso elogiou a iniciativa da intendência, tratou sobre o trabalho desenvolvido pela categoria, lembrando que os professores eram os formadores...

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(Foto: enviada pelo autor ao Portal Geledés)

Exu e alguns outros – metáforas cognitivas

Há alguns meses, com a pandemia colocando todos pra dentro de si enquanto casa, e já quase completando um ano de COVID-19, assisti um filme denominado “Exu - Além do Bem e do Mal” no canal Vimeo. Conheci por indicação do rapper Rincon Sapiência que, pro nosso bem, vem compartilhando várias produções audiovisuais em seus canais na internet. Como diz o próprio título da produção, trata-se da desconstrução de Exu como uma entidade “assim” ou “assado”, frequentemente recebendo uma plaquinha negativa. Apesar de eu não estar tão por dentro destas discussões, o poder de tal preconceito chega fácil aos meus sentidos pouco conhecedores de religiões de matriz africana. O filme conta com a participação de pessoas do candomblé, corpos velhos, corpos de Exu e outros orixás, entrevistas e bate papos “esclarecendo” a complexidade, por vezes simples e natural, que este orixá confere. Em linhas gerais, o ocidente, e isto inclui...

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Gabourey Sidibe interpretando a personagem Preciosa (Foto:  Lions Gate Entertainment/Reprodução)

Como o filme “Preciosa” contrariou a narrativa do white savior

Embora em meados dos anos 1980 com o poema “O fardo do homem branco”, já se falasse do complexo do branco salvador, ou white savior, como viralizou na cultura pop, ele existe, mesmo que ainda não nomeado, muito antes disso. O termo, que é utilizado para narrativas em que um personagem, obviamente branco, torna-se o protagonista de uma história que, em tese, não deveria ser sua, tornando-se assim, um herói para aquela raça em questão que se encontra em situação de apuro, seja ela qual for, muçulmana, asiática, indígena - mas, como dita a nossa história, ela é quase sempre branca. É necessário apontar que essa narrativa não se restringe somente à uma mídia, podendo estar presente em livros, pinturas, músicas, o que for. Mas aqui, focarei no universo cinematográfico como meu objeto de análise. Passando por clássicos como “O Sol é para Todos”, “Lawrence da Arábia” e “Dança com...

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Christian Ribeiro (Foto: Arquivo Pessoal)

A quilombagem cultural contemporânea das editoras afro-brasileiras

Em tempos que grande parte do jornalismo cultural brasileiro saúda o boom da chamada literatura afro-brasileira e, principalmente, da publicação de autorias negras pelas grandes editoras do país, como demonstração de uma mudança dos paradigmas empresariais que ditam as demandas de publicação em consonância com a crescente demanda por esse universo literato, acreditamos ser importante ressaltar que tal realidade só ocorre pela existências e atuações das chamadas editoras negras ou afro-brasileiras (1). Editoras essas que são comumente ignoradas em suas trajetórias e importâncias, tendo por vezes seus próprios nomes omitidos nas reportagens das grandes mídias, como se não tivessem significância alguma em meio ao mercado editorial brasileiro. Tal fato, acreditamos ser decorrência de uma característica da intelectualidade brasileira em não reconhecer, em não associar a construção e articulação de saberes com as populações negras. O retrabalhar de sapiências ou a representação de percepções e saberes em forma literata, poética ou...

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Tripé - Rumo a Jerusalém

Candaces, a realeza meroíta cai no samba: o carnaval de 2007 da Acadêmicos do Salgueiro

Desde 1984, o sambódromo da Marquês de Sapucaí é palco do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Lá, foram protagonizados desfiles antológicos como: Kizomba, Festa da Raça, da Vila Isabel (1988); Ratos E Urubus... Larguem Minha Fantasia, da Beija-Flor (1989); Meu deus, meu deus, está extinta a escravidão?, da Paraíso do Tuiuti (2018);  História para ninar gente grande, da Mangueira (2019).  A passarela do samba carioca foi trajeto de personagens como Joãozinho da Gomeia, o grupo musical Ganhadeiras de Itapuã, e outras figuras negras resgatadas, homenageadas e apresentadas para o público. No que tange as civilizações e personalidades endógenas ao continente africano, a historiografia tem um papel fundamental para a construção dos enredos das escolas de samba, visto que várias obras constituíram-se como base para a elaboração dos mesmos. O historiador britânico John Fage (2010, p.77), aponta que é a partir da década de 1940 que surge...

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O futuro se avizinha: a memória ancestral do povo brasileiro

Estamos imersos num caos social, econômico, ambiental, sanitário, político... São meses de uma pandemia sem controle por parte do Estado brasileiro. Mais de 189 mil mortos.  São meses de isolamento furado, de comércios abertos, de ataque à saúde mental a cada fala desastrosa e equivocada do presidente da república. Existe uma suspensão do Estado de Direito em toda a esfera pública. Não há qualquer plano coletivo, não existe um plano de prevenção e controle da pandemia COVID-19, não há plano político, não há plano econômico. Não há estratégia de combate ao desemprego e a carestia impõe a fome a milhares de famílias neste país. O auxílio miserável de R$ 300,00 findou esse mês.  A ciência e a pesquisa científica, tão incentivadas pela expansão das universidades públicas durante os governos progressistas, vêm sendo sistematicamente solapadas pelos “achismos” das redes sociais e, não somente por parte dos conservadores. Em meio a tudo...

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Você consegue ver humanidade em uma pessoa negra?

Não é de hoje; da conjuntura atual; tão pouco da contemporaneidade que vivemos a gênesis da invisibilização dos corpos negros. Esta prática inicia-se no "tempo-espaço-filosófico" quando uma cultura etnocêntrica deseja ter mais poder, desejo de erguer-se economicamente e ter recursos e vantagem às custas de outrem ao invés de fazer por si próprio, explorar a outra, dominar, ditar suas regras, imposições, costumes de culto religiosos, crenças, valores sobre ela. É necessário vasculharmos a história dos nossos ancestrais, antepassados e adentrarmos em nós. Dentro do que é mais humano dentro de nós: nossa origem. Fazer um povo, uma comunidade abandonar sua origem, é fazer com que ela perca a sua essência. É ela não saber quem é. É uma morte-vida. É estar morto em uma vida. Tudo isto iniciou anteriormente ao Navio Negreiro. Em uma cultura ocidental, onde invisibiliza os nossos. Nossos corpos, nossas mentes, mas sobretudo, nossas almas. Como diz...

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Tecendo histórias e poemas: a consciência negra na educação

No dia 20 de novembro do ano de 2020 participei, a convite da Thalita Pinho (assistente social e professora da FPO), da mesa que dá título a este texto, compartilhei fala com as queridas Valéria Lourenço (escritora e professora do IFCE-Crateús) e Patrícia Matos (pretagoga na COPPIR-Fortaleza).  Divido com vocês a minha fala. Esta parece ser uma informação muito pessoal. Mas tal informação, aparentemente “confidencial”, não é nada privada. (Grada Kilomba) Quero iniciar considerando acerca do título desta mesa - Tecendo histórias e poemas: a consciência negra na educação - título poético, carregado de força, de sentidos. Tem um sentido de nós, mulheres negras, estarmos em espaços que nos foram negados: literatura, invoco Maria Firmina dos Reis; escola, invoco Bernardina Maria Elvira Rich. Tem um sentido de contar nossas histórias, de sermos referências positivas de dedicação, trabalho, intelectualidades, sensibilidades, belezas e tudo de bom e bonito que nós, pessoas negras,...

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Bad Brains/Divulgação

5 discos para não esquecer que o rock é som de preto

De Little Richard à Miles Davis e de Chuck Berry à George Clinton a presença negra no rock vai muito além dos incendiários solos de Jimi Hendrix. Desde os riffs swingados do Rhythm & Blues de Sister Rosetta Tharpe e culto obscuro a persona de Robert Johnson o rock n’ roll – e suas inúmeras variações –, vem lutando para não deixar esquecer que ele também é feito por pessoas negras. Muito se discute sobre o pioneirismo negro no rock, fato que é inegável, apesar de todas as tentativas, algumas com muito sucesso, de embranquecimento do gênero e seus sub-gêneros. Nesse texto não tenho a intenção de discutir a maternidade e paternidade negra do rock, nem as formas como a branquitude se apropriou da criatividade negra, assunto que foi com certeza destrinchado com maestria por inúmeros outros textos. Quero aqui compartilhar algumas de minhas paixões e descobertas recentes que me...

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Ato Contra a Discriminação Racial convocado pela vereadora Sonia Cruz (com microfone) na Câmara Municipal de Osasco e com presenças de Tereza Santos e Sueli Carneiro (ARQUIVO PESSOAL)

‘Mãe preta, casa comum’

A casa construída no debaixo da rua dos Pirineus, localizada no Pau Miúdo, bairro periférico soteropolitano, no ano de 2020, ainda existe. A casa construída no debaixo da rua dos Pirineus foi erguida sobre um naco de terra cedido aos novos proprietários pela Igreja Católica, dois quartos, sala, cozinha e o cercado destelhado na parte externa era o único banheiro. A casa construída no debaixo da rua compartilha uma das suas paredes com a comunidade tradicional de terreiro, chamada Ilê Axé Adjemim, fundada pelo pai de santo Apolinário e conduzida por sua filha Aureliana, mais tarde conhecida como “mãe Lelu”. A casa construída no debaixo é apenas acessível desde uma escada bastante íngreme e, no dentro da casa, concluída a ribanceira de degraus mal-acabados, uma família absolutamente negra. São absolutamente negros porque a mãe é a mulher responsável pela casa, pela comida, pelas roupas, pela limpeza e pelas seis crianças...

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Edson Cardoso, professor e jornalista | Foto: Sergio Silva/Ponte Jornalismo

Afinal, a negrinha era uma mulher?

No pós-escravidão, uma reminiscência drummondiana. Cautela com as reminiscências literárias, claro. No início dos anos setenta do século passado, era comum nas faculdades de Letras o uso do manual “Teoria da Literatura”, de Wellek e Warren, cuja primeira edição norte-americana é de 1948. Wellek e Warren já alertavam os leitores, em meados do século XX, sobre os perigos de se considerar a arte uma mera cópia da vida e advertia-nos sobre os equívocos do “método biográfico”. Não entro aqui, obviamente, no mérito da questão.  Drummond, o poeta, filho de fazendeiro no interior de Minas, nasceu em 1902 e escreveu, à exaustão, sobre sua infância. Não se trata de abstrações, há marcas ostensivas de  processos históricos e sociais, cenas paroquiais e familiares.  Os ex-escravos estão por ali, agregados ou não. No poema que nos interessa (“Tentativa”, Boitempo, Poesia completa, 2004, transcrito a seguir), um garoto conta com a ajuda de seu...

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O trânsito para a liberdade e a precarização do trabalho livre no final do século XIX

O Brasil foi o último país a abolir a escravidão. Apesar da resistência de mulheres e homens escravizados e de movimentos antiescravistas nacionais e internacionais, aqui ela sobreviveu à conjuntura global antiescravista surgida com a crise dos sistemas coloniais. A abolição vai acontecer apenas no final do século XIX, respaldada por legisladores, depois de um conjunto de normas jurídicas que pretendiam uma “transição” para o trabalho livre mediante a indenização das elites escravistas, do controle e da disciplina dessas trabalhadoras e trabalhadores que passariam a ter liberdade para negociar a força de trabalho. A resistência à abolição da escravidão foi justificada pela dependência do trabalho cativo e pela racialização do comportamento em liberdade dessas mulheres e desses homens, que seria marcada por insubordinação, desordens e perversão moral, como argumenta a historiadora Wlamyra Albuquerque. Aliás, esses argumentos foram usados em todas as sociedades que passaram por processos emancipacionistas, desde os Estados...

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Senso de justiça e retidão, racismo e meritocracia – Cultivar o senso de justiça e retidão como estratégia possível para enfrentar práticas racistas

“O valor do ser humano está no seu senso de justiça e de retidão” (Mokiti Okada)   A saída do chamado “lugar do negro”¹ não decorreu da meritocracia² para mim, mas sim, da postura intransigente de pessoas que, movidas pelo espírito de retidão, procuraram ser justas. Primogênita de sete crianças negras, influenciada pelas revolucionárias ideias de uma mãe cosmopolita – ex-proprietária de tinturaria vendida ao casar-se com um trabalhador rural e mudar-se para o campo –, fui a primeira pessoa preta a ocupar alguns espaços antes destinados a pessoas não descendentes dos povos da África subsaariana. Na zona rural, começamos a trabalhar em tenra idade em casa, nas plantações, como cuidadores de animais e, não raro, como as crianças que “brincavam” com os patrõezinhos. Todavia, meus irmãos e eu somos parte de um grupo privilegiado. Nossa mãe – que havia estudado até a terceira série primária – nos alfabetizou, e,...

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Relembrando Palmares: do quilombo histórico à memória do povo negro

Com muita alegria, anunciamos a abertura de quarta sala da Exposição “20 de Novembro - Dia Nacional da Consciência Negra” no Google Arts & Culture! Esta sala é especialmente dedicada às experiências de rememoração do Quilombo de Palmares estabelecidas pelo povo negro entre o século XIX e a primeira metade do século XX. Para isso, criamos uma proposta de imaginação histórica a partir das ilustrações de Marcelo D’Salete, de fotografias do acervo do Museu Theo Brandão e de coleções particulares, bem como de jornais da imprensa negra. As aproximações com as histórias sobre Palmares são também embaladas pelas chamadas da Rádio Palmarina, uma novidade deste painel! Acompanhado de faixas do álbum “Malungos”, do trompetista Allan Abadia, o poeta Carlos de Assumpção revisita suas memórias a partir de seus poemas nos quais incorpora as imagens do quilombo e sua gente guerreira. Isso incluiu até mesmo o reencontro com o poema “Diálogo...

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