sexta-feira, julho 23, 2021

Guest Post

Viviana Santiago   (Foto: Prefeitura de Piracicaba/Divulgação)

No Julho das Mulheres Negras e eu pergunto: Quando vamos começar o diálogo sobre responsabilização de racistas no mercado de trabalho?

2020 ficará conhecido como aquele ano em que ficou praticamente impossível voltar atrás em discussões sobre a importância de discutir questões etnicorraciais e o mercado de trabalho Das maneiras mais variadas, empresas, corporações, artistas, todo mundo decidiu assumir publicamente uma posição sobre o assunto e o maior consenso criado se deu em torno da ideia de : Tornar-se um aliado das pessoas negras (as vezes mencionam indígenas) e ensinar e aprender sobre o racismo. Feito isso, as pessoas marcam lá um Done na sua lista de tarefinhas e seguem felizes mal cabendo em si de tanto orgulho de sua intensa contribuição para esse trabalho. Algumas dessas pessoas até fizeram mais, abriram vagas afirmativas, assumiram compromissos com a elevação da proporção das pessoas negras em seu staff e até em posições de liderança, Parece um amanhecer em Wakanda né? Sinto dizer que: Não. Enquanto mulher negra, ativista dos movimentos de mulheres...

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Devir quilomba e a feminização do conceito de quilombo no Brasil

Faz tempo que a imagem dos quilombos tem sido utilizada pelos movimentos negros para evocar resistência, bem como um modelo societário a ser seguido. Até o século XX, a imagem predominante sobre a resistência quilombola valorizava as práticas masculinas em termos de virilidade, de guerra e de força. Entretanto, nos últimos anos vêm ocorrendo transformações significativas nas narrativas sobre os quilombos. A recente visibilidade e o reconhecimento do protagonismo das mulheres quilombolas na luta pela terra exprimem que o conteúdo dessas mudanças incorpora a dimensão de gênero.  Oficina de Mulheres Quilombolas-CONAQ, quilombo Maria Joaquina-RJ. Fonte: http://conaq.org.br/coletivo/mulheres/ Foto: Ana Carolina Fernandes. Esses deslocamentos de sentido materializam-se em inúmeros trabalhos acadêmicos, documentários e matérias jornalísticas. Destaca-se, em 2020, a publicação do livro Mulheres quilombolas: territórios de existências negras femininas. A obra coletiva escrita por dezoito mulheres quilombolas apresenta teorizações por meio dos enfrentamentos sobre as violências que incidem sobre seus corpos e...

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Fotos: Arquivo Pessoal/ Enviado ao Portal Geledés

Resistências!

A Coletiva Negras que Movem reafirma-se no Julho das Pretas, celebrando em seu primeiro um ano de existência, as resistências das mulheres!  Entre os desafios frequentes das mulheres, pense em ti agora no espaço de trabalho.  E aí, já usaram além da informação e ação, até as suas palavras escritas ou faladas?  Nós buscamos romper a crença limitante de que a vida é relativamente sem esperança, nós acreditamos no presente e futuro melhor, incluindo-se nas relações de trabalho e nas relações de gênero. Então resistimos, nos expressando e reconhecendo a importância do que construímos e do que somos. Precisamos superar traumas diversos entre eles, os financeiros e sociais que nos impactam tanto, e que vem se ampliado nessa pandemia, pois em período de escassez, privações, incertezas, muita insegurança alimentar, desempregos e ataques aos direitos, sabemos que em razão da nossa cor, gênero e classe, e por estarmos no campo ou...

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Maria Felipa comandou mulheres que conseguiram
expulsar tropas portuguesas da Ilha de Itaparica
(Imagem: Filomena Modesto Orge/Arquivo Público
do Estado da Bahia)

As Marias Felipas de Hoje

Maria Felipa, mulher Preta, marisqueira, que liderou um grupo de mulheres e índios na batalha contra os portugueses em 1823, chegando atear fogo em cerca de 40 embarcações que estavam atracadas nas proximidades da ilha de Itaparica.´ De acordo com Eny Kleyde Farias, pesquisadora e autora do livro “Maria Felipa de Oliveira: heroína da independência da Bahia”, lançado em 2010, “ As mulheres seduziam os portugueses, levavam pra uma praia, faziam com que eles bebessem, os despiam e davam uma surra de cansanção”. Para quem nunca ouviu falar de cansanção, é uma planta, tradicional aqui da região, também conhecida como urtiga brava, que em contato com a pele, coça, arde. É muito comum aqui na Bahia, falarmos: “vou te dar uma surra de cansanção”. Na educação básica conheci o nome e um pouco da história de Joana Angélica e Maria Quitéria, inclusive aqui na Bahia, temos rua e monumento em...

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Mulheres Negras e as Eleições Municipais de 2020

A discussão sobre a participação política das mulheres no Brasil remonta aos Oitocentos. Apesar de manifestações anteriores, foi só no final do século XIX que as primeiras atividades conjuntas passaram a ocorrer, de forma mais acentuada, atreladas ao movimento sufragista, com posicionamentos oriundos, especialmente, de mulheres da elite econômica da nascente república. Por outro lado, foi possível verificar também a movimentação de mulheres operárias, influenciadas pelo marxismo ou pelo anarquismo. Este primeiro momento foi até a década de 1930, quando as mulheres conquistaram o direito de votar e de serem votadas. Entre os anos de 1940 e 1950, essas discussões arrefeceram, voltando a florescer a partir de 1970, quando em meio à ditadura civil-militar, as mulheres criaram frentes de participação política, entre as quais se destacavam as organizações da sociedade civil e os partidos políticos. Os anos de 1980 foram marcados pela luta em prol da redemocratização do País e...

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Foto: Stock/Adobe

Quanto vale a dor de uma pessoa preta?

Como é de conhecimento de todos, o Brasil ostentou o regime escravocrata por 300 anos. Após a Lei Áurea a liberdade não alcançou a população negra, vez que o estado recorreu à legislação, especialmente os Códigos Penais, para segregar os negros. Então, a senzala foi proibida, mas as cadeias, instituto disciplinar e manicômios estavam de portas abertas para receber e excluir esse público. Após anos de lutas buscando a igualdade, batalha que não se encerrou com a promulgação da Constituição Federal, a população negra continua sendo excluída do desenvolvimento social, e sofrendo com o racismo. Para manutenção da resistência, em um estado dito democrático, o judiciário é, ou deveria ser, a ferramenta aliada para buscar a igualdade preconizada na Carta Magna. Contudo, em que pese a população negra resiste e busque equiparação histórica, o judiciário também resiste e nos nega proteção dos direitos fundamentais. Sentenças por condutas discriminatórias, racistas, ainda...

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Jaqueline Fraga (Foto: Guga Renato)

Precisamos falar sobre as personagens negras em “Salve-se quem puder”

Vira e mexe eu costumo escrever ou comentar sobre produções midiáticas, especialmente aquelas que têm o poder de alcançar milhares de pessoas. É o caso de novelas globais, por exemplo. E é justamente sobre uma delas que falarei aqui hoje. Nos próximos dias vai ao ar o último capítulo da atual trama das 19h: “Salve-se quem puder”, folhetim que conta com três atrizes como protagonistas. O enredo é de certa medida leve, com toques de humor, o padrão para o horário. No entanto, há um outro padrão que também se repete, quando, na verdade, já não deveria mais ocorrer. Em um momento em que clamamos por representatividade, e por representatividade com significado e relevância, infelizmente não é isso que percebemos na novela em questão. Como citei anteriormente, a trama é protagonizada por três mulheres, três personagens vividas exclusivamente por atrizes brancas. São elas: Alexia/Josimara (Deborah Secco), Luna/Fiona (Juliana Paiva) e...

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Foto: Stock/Adobe

O que esperas de mim?

Porque uma Mulher Negra, periférica de luta e na luta tem que ser questionada a todo momento com um bombardeio de perguntas duvidosas: Você criou esse texto? Você copiou? De onde tirou essa ideia? Você se apropriou de algo alheio? Nossa que lindo, você que produziu? Como conseguiu? Como todo mito, mulheres Negras figuram um desenhar de subjetividade ligado apenas a domésticas, dançarinas, serventes, faxineiras, babás, prostitutas, mulatas, vendedoras, não desqualificando nenhuma dessas magnificas identidades, mas repensando como se dá o transpor desses imaginários.  Querer ser/viver a função de poetisa, escritora e pesquisadoras nos mostrar que romper essa lógica dói/machuca/silencia. Uma violência simbólica, contida na estrutura da sociedade ou apenas mimimi, vitimismo?  Sim, nossa escrita é contaminada por diversas narrativas que se esparramam e se misturam na trajetória de nossas vidas, nossas/suas escrevivências. Seria isso plágio?  Queria conseguir compor em versos, o que esperam de mulheres Negras, pesquisadoras, trabalhadoras, mães,...

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Foto: Stock/Adobe

Tem mulher na roda! Gênero e capoeira

Introdução Vivemos em um país onde a violência contra a mulher é naturalizada. Culpá-la pela própria violência, como ocorre em muitos casos, é uma estratégia do patriarcado que encobre e dificulta a identificação do agressor. Em relação especificamente ao universo atual da capoeira do Brasil, um dos principais problemas é o assédio sexual, tanto dentro como fora das rodas.  Mulheres capoeiras do passado Ainda que tolerada durante a Monarquia, a partir da publicação do Código Penal de 1890, já na República, a prática da capoeira torna-se um crime. São bastante raros os processos criminais arrolados contra mulheres capoeiras. Pires (2004) busca traçar uma história social da capoeira baiana entre 1890 e 1930. Ainda que exista uma reduzida presença de mulheres (3%) entre os processados por homicídio e lesões corporais, o autor cita um processo relativo à lavadeira baiana, Maria Elisa do Espírito Santo, a qual, em 1910, estava em seu...

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A escritora brasileira Carolina Maria de Jesus durante noite de autógrafos do lançamento de seu livro "Quarto de Despejo", em uma livraria na rua Marconi, em São Paulo (SP). (São Paulo (SP), 09.09.1960. (Foto: Acervo UH/Folhapress)

Carta para Carolina Maria de Jesus – Por Aline Botelho

Rio de Janeiro-2021. Essa carta é direcionada para uma Feminista que catava lixos, aproveitava restos de palavras e produzia reflexões inspiradoras e desafiadoras, que retratava a escrita do cotidiano do favelado. Carolina Maria de Jesus, escrevo a ti para tentar de alguma forma compreender o seu ponto de vista em relação a um questionamento que me inquieta e insiste em martelar na minha cabeça.  Antes de iniciar preciso te posicionar a respeito de como está o nosso Brasil. Tivemos alguns avanços na questão educacional. Eu mesma consegui obter o diploma de graduação em uma Universidade Pública, através de um Programa chamado Plano Nacional de Formação de Professores- licenciatura de Pedagogia, esta plataforma carregava o nome do nosso centenário querido Paulo Freire. Com a formação acadêmica, pude passar em alguns concursos públicos e viajei de avião. Sim, durante algum tempo a qualidade de vida do povo brasileiro melhorou.  Ter alimento na...

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Foto: Stock/Adobe

Os negros e os LGBT

Mais um mês do Orgulho LGBT+ está terminando no país que mais mata LGBTs no mundo e que elegeu um LGBTfóbico assumido para a ocupar a presidência da república. Muito se diz que datas como essas são criadas para fazer lembrar e refletir. Refletir sobre a violência perpetrada contra LGBTs e lembrar daqueles que vieram antes dessa geração, que suaram, lutaram e morreram para que tivessem melhores condições de vida, e para que seus direitos (e existências) fossem reconhecidos. Apesar de a comunidade negra ter sido forjada em muita luta contra o preconceito e contra a violência - que ceifa inúmeras vidas negras diariamente -, parte dos negros que se autoproclamam conscientes sobre questões de raça ainda destila LGBTfobia, demonstrando irritação quando são levantadas as existências de LGBTs negros, ou ainda, quando são pedidos tolerância e respeito para eles dentro de espaços voltados às pessoas negras e debates raciais. Meu...

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Januário Garcia/ Foto: Junior Esteves

Para Januário

Januário ousou dar luz àquilo que o Brasil nunca quis enxergar.Ousou registrar a beleza da pele preta,A beleza da periferia, a beleza da diferença.Ousou mostrar a dor de sorrisosE o brilho da escuridão.Janu capturou o movimento por lentesParalisou em segundos as expressões que alimentam nossas lutasJanuário é potência que atravessou décadasE eternizou a trajetória de um povoque ainda luta por seu lugar ao sol. Agora, Janu é Sol, juntou-se ao seu brilhoPartilha no Orum a luz que trouxe pra Terra.Seus registros são sementes, flores, jardins inteiros.Sua memória e legado são adubo pro nosso futuro.Gratidão por seu olhar eternizado nas imagens que ficam. Janu, o Orum te recebe e se ilumina, Axé babá ** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA...

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Hemetério, Rufina e Coema: professores negros e o legado da educação

Em outubro de 1910, cerca de duzentas moças seriam solenemente diplomadas professoras naquela que prometia ser uma “brilhantíssima festividade” promovida pela Prefeitura do Distrito Federal (à época a cidade do Rio de Janeiro). Como havia três anos que não ocorria uma cerimônia desse tipo, seriam reunidas as concluintes dos anos de 1907, 1908 e 1909. Dentre as formandas estava a jovem Coema Hemetério dos Santos, que naquele mesmo mês completaria vinte e dois anos de idade. Seu nome, de origem Tupi, “o início da manhã”, foi a forma escolhida por seus pais, Hemetério José e Rufina Vaz, para marcarem o início da família Hemetério dos Santos. Formada a partir da união de um casal de professores negros, os Hemetério dos Santos procuraram transmitir o legado do magistério à menina “flor de beleza” e “luz de amor”. Nascida em 20 de outubro de 1888 na Corte do Rio de Janeiro, Coema...

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40 anos do Adé Dudu: a história do Grupo de Negros Homossexuais

Há 40 anos, em março de 1981, surgiu em Salvador, na Bahia, o Adé Dudu, o Grupo de Negros Homossexuais. Com um nome originado no iorubá, significando “negro homossexual”, o grupo contou em sua fundação com diversos militantes do Movimento Negro como Tosta Passarinho, o jornalista Hamilton Vieira (que utilizava o pseudônimo Estêvão dos Santos), Ermeval da Hora e Wilson Bispo dos Santos, hoje Wilson Mandela. Contudo, este grupo que teve relevante atuação, nas palavras do próprio Wilson Mandela, contra as estruturas racistas e homofóbicas da sociedade e dos movimentos sociais por uma década, acabou caindo no ostracismo nos anos seguintes e quase não é lembrado nas narrativas históricas e discursos contemporâneos do Movimento LGBTI+ brasileiro, anteriormente Movimento Homossexual. A história do Movimento Homossexual Brasileiro costuma ter o seu início demarcado pela historiografia especializada com a fundação, em 1978, do jornal Lampião da Esquina e do grupo Somos – Grupo...

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Exposição virtual: Adé Dudu: Caminhos LGBT+ na luta negra

Com muita satisfação, anunciamos a abertura da Exposição "Adé Dudu: Caminhos LGBT+ na luta negra” no Google Arts & Culture No dia 28 de junho, Dia Internacional do Orgulho LGBT+, apresentamos a exposição “Adé Dudu: Caminhos LGBT+ na luta negra”. A partir de arquivos privados, documentos públicos e entrevistas com remanescentes e apoiadores contruímos a história do “Adé Dudu: grupo de negros homossexuais”. O grupo construiu uma sólida reflexão e traçou importantes mecanismos de atuação para combater e evidenciar o preconceito contra os negros homossexuais em Salvador, nos anos 1980. A articulação entre os movimentos sociais do período, as formas de reprodução do racismo e da homofobia, as estratégias para combater o “duplo preconceito” e a cidade criada para vivenciar a homossexualidade estão presente ao longo da exposição, que ainda aborda a importância do direito à memória dos homossexuais negros que agiram, lutaram e existiram nessa sociedade racista e LGBTfóbica....

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Foto: Enviada pelas autoras para o Portal Geledés

Preta, pretinha, não liga para o que dizem essas pessoas e só abaixe a sua cabeça, quando for para colocar a coroa.¹

Recentemente o Instituto da Mulher Negra – Geledés, realizou a pesquisa “A educação de meninas negras em tempos de pandemia: O aprofundamento das desigualdades”. Embora o estudo tenha como local de pesquisa a cidade de São Paulo, seus resultados chamam a atenção para a situação da educação das meninas negras em todo o país. O texto desta semana buscará refletir sobre alguns dos resultados alcançados pela pesquisa que devem ser percebidos por mulheres negras adultas, em especial àquelas consideradas lideranças. É evidente que o compromisso com os direitos e cuidado das meninas negras, e de todas as crianças e adolescentes, é de responsabilidade coletiva, exatamente como determina o artigo 227 da Constituição Federal, entretanto, é notório que as mulheres negras têm um olhar mais sensível, humano e próximo à realidade das meninas negras, seja porque um dia já foram meninas negras , seja porque elas irão herdar  o legado social...

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Stock/Adobe

As mortes de ontem e hoje

Não escrevo esperando ser compreendido na plenitude do que expresso. Escrevo como alguém atravessado pela dor, mas ao mesmo tempo consciente que as memórias devem animar compromissos com o hoje e o amanhã. No debate atual brasileiro muito se tem ventilado sobre alianças e possibilidades de “reconstrução nacional”, um “pacto de democratas” que traria o Brasil ao seu bom e saudoso momento de esplendor dos períodos lulistas. Gostaria de lançar mão sobre alguns aspectos, para em seguida formular o que tenho chamado de política do marco zero.  Em uma política de frente ampla sempre não cabe alguém, e pasmem, falo de lutadores e lutadoras. Em uma política de frente ampla, se privilegiam elites, elites regionais e locais. Eu não sei quanto a vocês, mas no Maranhão se vive assombrado com esta constante possibilidade, repetida tantas vezes que já é parte do jogo. Elites locais e regionais são constantemente rearranjadas por...

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Esperança Garcia e os usos do passado no presente: Direito e memória

Em 2017, a Ordem dos Advogados e Advogadas do Brasil, Seção Piauí, reconheceu simbolicamente Esperança Garcia, uma mestiça escravizada na segunda metade do século XVIII, como a sua primeira advogada. Esperança utilizou a escrita para exigir que as autoridades locais agissem conforme as regras jurídicas e religiosas coloniais. Estas concediam aos súditos prerrogativas simples, como as de se conservarem cristãos, constituírem famílias e batizarem seus filhos. Neste pequeno texto buscaremos socializar essa experiência local em que diversos setores – movimentos sociais organizados – e instituições – universidades e OAB – se uniram na construção de um dossiê histórico situando uma mulher negra e escravizada como símbolo de luta e resistência na contemporaneidade. Em 6 de setembro de 1770, Esperança redigiu uma petição ao governador da Capitania do Piauí, na qual denunciava a situação que ela, seus familiares e suas companheiras de cativeiro enfrentavam. Desde que o capitão Antônio Vieira Couto,...

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Marina Ribeiro Lopes (Foto: Arquivo pessoal)

Pandemia ladeira abaixo – A gente sempre tem que morrer?

No início da pandemia, fomos chamados para uma ocorrência em uma área bem pobre da cidade, acho que foi acidente de moto. Descia uma ladeirona. No bem-lá-embaixo dela, uma multidão de tanta gente da rua, na rua, nas calçadas: lugares que sempre foram extensão de suas minúsculas casas, que se tornam menor a cada criança que chega.  Era fim de semana. Mesmo em uma cena de acidente-não-grave, crianças em festa com a luzes piscantes da ambulância e do gigante caminhão do bombeiro; bêbados e bêbadas com seus altos sons, seus churrasquinhos, seu lazer de rua, que segue sendo suas casas. Gritavam com humor: “olha o corona”, gargalhavam e se divertiam. E eu pensando, alarmada com o que via, como esta gente vai sobreviver ao vírus deste jeito? Minha mente “fique-em-casa” se chocava  com tanto contato, tão pouco álcool-gel, unânime falta de máscara. Como este meu povo preto, nesta sua morada...

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Foto: drasko/ThinkStock/

A guerra nunca foi contra às drogas, sempre foi extermínio

(Sobre)Viver no Brasil exige de nós muito esforço, sobretudo, das minorias étnicos-raciais. Nunca foi fácil ter que lidar com o racismo e com as desigualdades provenientes dessa estrutura, no entanto, sinto que desde 2016, ano em que a extrema-direita demarcava seu território e anunciava o que estava por vir, estamos protagonizando mais uma guerra que já acumula incontáveis mortes, físicas e simbólicas. Na verdade, o país está em guerra desde a invasão dos europeus.  Genocídio, ecocídio, etnocídio. O projeto colonial no Brasil segue em curso e avança rapidamente. Enquanto tentamos nos recuperar de mais uma morte dos nossos, lá estão eles articulando mais um atentado às nossas vidas.  O Estado com os seus aparatos institucionais, continua a legitimar toda violência direcionada ao povo preto. Enquanto escrevo esse texto, mais um jovem negro foi alvejado em uma troca de tiros entre a polícia e o tráfico, na chamada “guerra às drogas”,...

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